P:P-P

Palavra-Porrada é um ezine mensal com textos que só têm uma coisa
em comum: teor zero de açúcar.

Os textos-porradas não têm que ser agressivos. Não têm que ser
violentos. Não têm que ser grosseiros (aqui tem até poema de amor,
mas sem rima de "coração" com "paixão").

A participação é livre e recebemos material até o último domingo
do mês anterior a cada edição. As instruções para envio estão na
guia "Dê Porrada!". Claro que não dá pra publicar tudo o que
chega. Mas a gente lê tudo o que recebe e escolhe cerca de 30
de cada vez.


Este XIV Round traz André de Castro, Benê Dito Deíta, Betty Vidigal, Carlos Eduardo Ferreira de Oliveira, Cesar Veneziani, Dani.'. Maiolo, Diogo Mizael, Dom Ramon, Flá Perez, Giovani Iemini, Isadora Krieger, Izacyl Guimarães Ferreira, Jorge Mendes, José Antonio Cavalcanti, Jurema Aprile, Leo Lobos, Ricardo Ruiz, Romério Rômulo Valadares, Solange Mazzeto e Vlado Lima, além dos responsáveis pela bagunça, Lúcia Gönczy e Allan Vidigal.


Fomos assunto do programa Prosa & Verso da Radio Senado. Dá pra
baixar aqui.

25 de fev de 2010

P:P-P #0

CINCO POEMAS DE LEO LOBOS
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"Soy sirio. ¿Qué te asombra, extranjero, si el mundo
es la patria en que vivimos todos, paridos
por el caos?"

Meleagro de Gádara, 100 A.C.

JAZZ ON THE PARK
Leemos el diario en el Jazz on the Park ( Jazz on the Park es el hotel donde nos hemos mudado), me siento encerrado.
Nos han invitado al concierto de Peter Salett, y es sin duda una buena idea para salir de aquí al paso del estado en el que nos encontramos. Un taxi móvil nos lleva al Club que está prácticamente copado, entramos sin dificultad con la ayuda de los ángeles custodios en medio de luces fotográficas cegadoras, tomamos bebidas blancas, escuchamos con atención mientras hermosas mujeres rubias son
mecidas por la música.

New York, Estados
Unidos, 1999.



TRES MUJERES, UN PIANO, UN GATO Y UNA TORMENTA.
A Alexandra Keim.
Es difícil ser un pájaro
y volar contra la tormenta
sobre la cicatriz de la Tierra que deja el camino de asfalto
mejor es como un gato estar
siempre atento a las brasas
cerca de la chimenea
y escuchar
siempre atento escuchar
a tres lenguas diferentes hablar
un idioma a la vez fascinante
a la vez misterioso y conocido
oír e ir en su música
en sus luces y propias
y universales sombras
fotografiar
por tan solo un segundo
fotografiar con la mirada sus perfiles
de ser posible
flotar
dentro
de la sala
como
un pájaro
en
la
tormenta
Marnay-sur-Seine, Francia, 2002.


SILENCIOSO DENTRO DE LA NOCHE
“Ser como o rio que deflui
silencioso dentro da noite”
Manuel Bandeira
Fluir, leve andar
descalzo inflar lentamente los pulmones
pesar cada paso sentir
cada instante entrar
silencioso dentro
de la noche
como sí ella
fueras

Marnay-sur-Seine,
Francia, 2002.



UNA SECRETA FORMA
"las palabras como el río en la arena
se entierran en la arena"
Roberto Matta
el automóvil esta poseído por la fuerza
de los animales que le habitan
como un carruaje tirado por caballos
sobre piedras húmedas de un pasado verano
Río de Janeiro aparece de repente como
la secreta forma que el Atlántico
deja entrever desde sus colinas de azúcar:
ballenas a la distancia algo
comunican a nuestra humanidad sorda
y cegadas por el sol preparan su próximo vuelo
caen ellas entonces una vez más como
lo han hecho desde hace siglos
caen ellas en las profundidades entonces
caen ellas y crecen en su liquido amniótico.
São Paulo, Brasil, 2004.



PERDIDOS EM LA HABANA

Se puede ver a lo largo de Cuba verdes
o rojos o amarillos descascarándose con el
agua y el sol, verdaderos paisajes de estos
tiempos de guerra

Después de tres botellas de ron
ella lloraba en el lobby
del Hotel Capri, mientras le leía poemas que no eran míos,

Hablaba de las playas a las que llegó
en motocicleta, cuando aún el sol brillaba
los cubanos son niños que lo miran todo
decía

Otro él, aparece desde el centro del salón y necesito
más de un segundo para
reconocerle
me acerco y me cuenta de mujeres, palacios de salsa,
de bailes mágicos
no hay, pienso
no existe una isla
sin orillas...
No quiero habanos
no tengo dólares
mejor será
desaparecer antes que la noche
El Vedado,
La Habana,
Cuba, 1995.


DOIS POEMAS DE BETTY VIDIGAL
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TRAIÇÃO
Se o som me trai,
apunhalo a palavra pela costas.
E ela gosta.

Temos uma relação meio doente:
eu que invento a palavra,
ela que mente.

Mal jogo o som no mundo, já começa
com as mirabolâncias mais diversas,
as mais estapafúrdias peripécias.

Mal invento a palavra, mal a solto
e já se envolve em diz-que-diz-que,
presta-se a fofocas.

A gente não controla.
A palavra abusa,
deita e rola,
quem quiser a usa.



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ACEITAÇÃO DA LOUCURA (Flá Perez)
Não vou à igreja
pedir perdão
por ser desigual

- prefiro a ciência
e a hóstia rosa
da Roche -

Nessa demência cetim-lexotan,
cai bem a nudez e a vodka
manchando o lençol on the rocks.

Ai, esqueci por sua causa
o que ia dizer!

-acho que tinha a ver
com sua não aceitação
da minha cuca torta,
sacaneada-

Fique com seus acertos,
suas mortas, filhas-das-patas
chocas
e me deixe

-choque!-

Posso até ser errada,
mas o problema é seu
e dê graças a Deus,

se não entende nada.

***

ACREDITE SE QUISER (Lanoia)
foda não é crer em fada
nem achar que há encanto

em sapos na madrugada

príncipes do "por enquanto"
que aparecem do nada

feito mágica de salão

foda é esperar sentada
jogada ali num canto

da cama mal arrumada
já se afogando em pranto

sem amor no coração

***

ANALOGIAS (Allan Vidigal)
Virou um amor assim,
verdadeiro e genuíno
como uísque da rua Aurora.
Um amor tão puro,
impoluto e genuíno
quanto o travesti disforme
que se vende na Lineu
(mas que outrora foi menino
que o Lobo Mau comeu).

***

CADAFALSO TRAMPOLIM (Lanoia)
Cadafalso trampolim
esplendor da danação

armado dentro de mim

no lugar de um coração
que esperou antes do fim

vislumbrar compaixão

nas almofadas de cetim
espalhadas pelo chão

***

CARMELITA DOS PATINS (Flá Perez)
Coisa mais chata,
esse negócio de amor!

Vou virar freira
e me masturbar na cela,
embaixo do cobertor.

***

DELIRIUM TREMENS VOLUME II (Anderson H)
I)
não sei a quantidade de latinos
que morrem no deserto da lua,

mas talvez seja um número razoável
se comparado à quantidade de corpos
espalhados pelo deserto mexicano...

II)
números extravagantes
em quantidades
impensadas

invadem a tela
do pequeno
computador
de auditório:

e os macacos batem palmas!

III)
velhos cantores caribenhos abandonam o barco diariamente.

Solitários
e fudidos,

sem qualquer instrumento sonoro navegável,

fumam charutos e dizem que a miséria cultural
é uma invenção da armada norte americana...

IV)
- o que fezes em Cuba, Hemingway?!

V)
não há um poeta superior ao mulato raquítico
que rabiscou na tumba de Machado de Assis:

- a cuíca chora tanto que nunca te oucei muito bem!

Considerações perigosas no silêncio do banheiro
a vida muda
e nada fala:

fato que dói tanto!

dói tanto
que a gente se cala
e cai de canto:

os olhos no banheiro da alma
em silêncio, agonia e pranto.

mas a vida muda
e nada fala:

fato que dói tanto!

dói tanto
que a gente se entala
na pia do desencanto:

o coração na água parada
aguardando entre cada pancada
pequena pausa de espanto.

***

220 V (Cesar Veneziani)
Te amo? Isso não vem ao caso...
Meu caso contigo é arrepio,
um fio desencapado em curto
e eu curto isso tudo!


Mudo? Não, grito, escancaro,
encaro de frente o desafio!

Me fio no que me vem de dentro,
e dentro de ti me acabo...

E ao cabo de toda essa luxúria,
qual fúria de transbordado rio,

vem o estio do prazer realizado.

E ao meu lado descansas em paz.
Faz-se o silêncio da recomposição,
então, talvez veja se te amo...

***

ENCONTRO MARCADO (Ükma)
Eu vivo nos becos dos etcétaras
onde termina a numeração.

Hoje é dia de caçar contrastes
pelos parques da capital.

Desculpe se não beijei sua boca antes
meus lábios são secos demais
como las tazas llenas
de gelo e de certas cores

Num retorno próximo,
prometo exibir as coxas

E comprarei sapatos de salto agulha
Para lubrificar meus lábios.

***

INGRATOS (Flá Perez)
Abandonou Medéia,
o Jasão,
mas ela deu um jeito,
dele não precisar pagar pensão.

Deixou Ariadne na praia,
o imbecil do Teseu.
Bem-feito:
depois Fedra
o fodeu.

Bom destino
do cafajeste antigamente
os deuses não faziam vingar
suas sementes.

***

INTEMERATO (MaicknucleaR)

Infausto, não incauto. Quando alto salto no holocausto e percalço lucros de outrora sem fim. Em toda sua santidade o claustro! Expansivo esgrimo à tela um cosmorama em retrato pardo, estraçalhado, o degredo desta insensata confraternização da sociedade.
Se dizem que falo grego, que meu remédio não faz efeito, pois foi feito nesta grande e mundana casa; é por que eles nunca me convidam para estas festas de letrinhas pobres. É por que, hoje, tudo o que é (literariamente falando) Nobre; é o ato ou efeito de balelar! E se este povo quer tanto assim esta incomensurável BALELA-CIRCO, hoje tudo que assisto é poetinha balelar.
Guarde seus decassílabos diarreicos, endeusados pela massa de sectários-retardados-cult, oh poeta de merda. Fique em pé na cadeira e prepare a forca, pois esta conversa não encerra até deus me capotar...

Suas armas, oh nobreza, são Títulos-De-Antas
Echarpe da pompa,
Nariz empinado arremetendo seus blogs em taças com cerveja superfaturadas.
Mas calma lá:
não há nada de genial neste bando de lâmpadas - em Curto -,
há Antas-Título,
episódios repetidos de um hiperbólico blá-blá-blá.
Frívolos e triviais em suas churumélas doentias.
Opacos vermiformes de status comprado.
Gleba infértil no Circuito Dos Sem Talento.
Rebentos da política chupatória que habita as panelas do estrelismo literário.
Escribas, nada mais que escribas usando a mais nobre arte como tema para um estelionato político em recitais do reino sitcom.

E mando bala no espantalho mesmo sem seus clássicos de merda ter lido, pois se aqui hoje me arrisco é por que vim com alma e jorrando verdade. E se respeito tanto as letras assim como cago para a vil futilidade paulistana-central-nobre, isto é um sinal evidente de que aos padrões milimetricamente quadrados deste conluio de "sócios": eu não sou normal.

E porque não chorar as uvas? Só não vem pagar de estigma.
Sei que tremes pra minha rima, mas nem vem Classificar.
Tenho arte, não "Classe", sou o maldito Az da Bic.
Sou o Pato-Purific da privada literária!
BraZil mostra a cara. O segredo de minha aurora cataclísmica é a vida, ausente de mesquinharias crítica do tão célebre Balelar.

E continuo abominando os que vão "beber em fontes". E que precisam "flertar com sei lá o que" para poder escrever. E, meus caros, nada de "dialogar com diabos inanimados". E chega, em nome de algo santo, de "criar panoramas". O segredo do fazer é fazer e pronto. Assim como este maldito ponto final: Ponto.

***

INVERNO ÍNTIMO (Ükma)
Indiferente a filmes e fotos, a línguas e dedos, a paus e vaginas: frígida.
Inapetente a frutas e flores, chás e cafés, legumes e carnes: frígida.
Da música francesa, dos contos de Sade, do cine de Bertolucci: mantida a distância.
Dos bares pernambucanos, das praias catarinenses, dos cassinos uruguaios: desdém.
Este tesão perdido explodiu um planeta.
A nova rainha de gelo agitou os cabelos em cima do túmulo. Nevou no cemitério.


***

LINHA DE CHEGADA (Fillipe Jardim)
Esta é a última poesia que escrevo.

Por que perder tempo com isso?

Poesia é só uma espécie tosca de filosofia.
Menos chata, menos profunda.

Quando alcança a profundidade desejada
vira uma coisa maçante. Ridícula.

Já leu o Zaratustra em versos?

Que-Grande-Porcaria?

Poesia profunda é muito, muito chata.
Como toda coisa genial.

Por isso pra ser bom poeta
você tem que ser meio burro:
ou então parecer um imbecil.

Não um imbecil completo, é lógico,
um sonhador idiota está de ótimo tamanho.

Tudo mais é uma questão de tato
ou não.

Ser frio o suficiente pra parecer idiota
e ser pedante por isso.

Poesia tem que ser meio rasa
senão perde a beleza.

Então dane-se!

Pra que poesia? Uma garrafa de tinto
de três reais faz coisa bem melhor
na cabeça.

Da gente.

Essa poesia que não é canção.

Pois bem, uma mesa enferrujada,
um papel em branco, uma ideia
martelando: está cometida.

Pra que perder tempo com isso
quando se pode gastar uns centavos
e ter uma mulher do seu lado
ou debaixo de você?

Ou uma cerveja que pode te dizer milhões
de coisas a mais que uma simples poesia

extirpada?

Esta é a última que escrevo.

Veja só o monte de baboseiras
que ela está se tornando.

Veja quanta hipocrisia
deste cara que não sabe
pensar noutra coisa
senão numa porra de poesia
quando está sozinho.

Que é quando se escreve melhor.

Não, foda-se, esta é a última,
a saideira.

A poesia é uma praga!
Um mal de solitários perdidos
num fluxo besta de pensamentos
foscos.

(imagens, imagens, metáforas)

(imagética, camaradas, imagética)

Coisa humana demais,
expressão humana demais
pra que seja levada à sério.

Como este poema
impreciso.

Firme como a certeza
de que é o último

quando acabar-se tudo
neste ponto final

aqui
.

***

ONTEM EU ERA (Lúcia Gönczy)
ontem eu era
hoje já era
amanhã?...
-Hera!

***

O SEXO SEGUNDO MINHA BISAVÓ (Ogro da Fiona)
Sob um lençol
rasgado estrategicamente por sua genitora
ela recebeu meu biso
de pênis rijo
cinco meses antes do casamento
que fora marcado
com cinco anos de antecedência.

Naquela época
desnecessária era a prudência
haja vista
a forte ocorrência de prematuros.


Mas meu biso de pênis duro
ultrapassou panos
pelos e carnes
dando início
ao que aprendi chamar-se família.


E assim
passados anos e anos
essa quadrilha que hoje foi presa
traz estampada na primeira página do jornal
a foto em cadeia nacional
de uma gente de saga secular.


Todos sorrindo com dentes alvos e perfeitos
todos admitindo que nenhum crime é perfeito
sentado naquela imensa sala
daquela imponente mansão
daquela decadente cidade
de Amparo da Purificação
donde originou-se todo o estardalhaço.


Foi lá que minha bisa
perdeu
o
cabaço.

***

POEMA DE AMOR? (Allan Vidigal)
Se eu quero um amor?
Quero, sim, por que não?
Mas não me venha com esses
de bichinhos de pelúcia,
vinhos caros e bombons.
Quero amor caco de vidro.
De ressaca de bourbon.

Não um amorzinho belo,
amor flores e arco-íris,
serenatas, violinos.
Se vier amor, que seja
concertina, amor tormenta,
tatuagens, overdrive.

Muito menos um amor
com flechinha de cupido.
Seja um amor violento,
um amor bala perdida,
um amor ponto cinquenta,
um amor roleta russa.

E nem me venha com essa
de amor de coração.
Um amor só me interessa
se for desses que se sente
como um soco no estômago
e, de resto, tão sutil
quanto um bom chute no saco.

***

RAFAELE (Fillipe Jardim)
Um polegar.

Uma coisa que faz você voltar à infância. Talvez seja isso. Ele se deleitava enquanto ela esperava e gemia.

O cheirinho de peixe e alguns pelinhos encravados naquela pela arroxeada, cheia de pontinhos pretos e brancos, sendo percorrida por uma língua frenética.

- eu quero, ele dizia, o líquido amarelado fazendo filetes nos lábios, no queixo. Ela gemendo e esperando.

Rafaele. A concha, usando um termo à Lagoa Azul, e o brilhoso clitóris, ofensivo, a ser sorvido por mais um idiota cheio de tesão.

- Vai meu gostoso, me faz gozar, por muito pouco um bocejo.

Os olhos cinzentos do homem abriam e fechavam, aproveitando toda aquela protuberância.

- agora eu quero te comer.

- Vai, estavam de pé, terreno baldio, cheio de capim. À frente a avenida movimentada, final de tarde. Ela dobra a perna direita e encosta na coxa esquerda. Mete, gostoso, ela diz.

Meteu.

Sentindo-se cutucado na virilha pela protuberância. 8 cm de clitóris.

Quando gozou, ele sussurrou depressa, você sai primeiro, dez minutos vou embora.

E assim foi. Nem tinha mais sol, não se via mais a monstruosidade entre as pernas de Rafaele. Só o seu vulto, e o andar patético de puta, caminhando pela calçada, de volta ao ponto. O homem caminhava bambo, ao longe, indo na direção oposta.


***

SEJAMOS REALISTAS (Allan Vidigal)
Poupem-me dessa insistência
autoajudística, pentelha,
em ver a taça meio cheia.

O ponto de vista, sabe-se,
otimista ou pessimista,
não faz muita diferença
para quem não sente sede
e bebe de um só gole um cálice

de formicida e diabo verde.

***

SÓ O AMOR LIBERTA (Ogro da Fiona)
Ahhh ... Meu grande
e dulcíssimo amor!

Cause-me dor
através de um soco
na ponta do queixo!

Bata-me!
Eu deixo!

Contanto que eu sinta
que em ti
há um tesão porcamente reprimido
nessas nuances
que que nos falou
Leminski
Conquanto que sejas tu
a alma gêmea zulu
de um tal libertação
utópica
por demais.

Só o amor liberta
flatos
arrotos
e outras
manifestações
ancestrais.

***

SUAVES PRESTAÇÕES (Lúcia Gönczy)
ronco de motor
paralelas
absorventes
cara carater vontade
passo
a limpo
qualquer
passo
que não seja
suor
amor
laço
traço
vontades
nausea
grampo
sopapos
solavancos
distraídos e nojentos
vc eu nós
tds os verb-os
tds servos
duma mesma
ideologia
barata!

***

TODA ESPERA... (Lúcia Gönczy)
I
Toda espera é patética!
São noites cheias de pernas
De hipotéticos abraços.
Órgãos que se entrelaçam;
Con-
fundem-se
Trocam de função.
Aguardo. Aguço os sentidos;
Enquanto espero com tímpanos
Qualquer sinal
Visual
Que traga alguma lembrança
Que eu ainda
Não tenha esquecido
Num dia comum

II
são patéticas
quase todas as noites
que tem pernas
se abraçam
se renegam
hipotéticas
de promessas
inadiáveis momentâneas
conforme o caso,
a hora,
e o desejo.

***

TRANSANDO DE CAMISETA PRETA (Ükma)
Rasgou com a unha o olho da noite.
Conduziu a sorte no sentido do vento.

Mudou o curso do carro do seu anti--herói preferido
Apenas

e só,
com o olhar gateado.

Jurou que era a última vez, apagou as provas depois.

Lavou--se toda.
Dormiu tranqüila com o soco do calmante.

Sonharei amanhã, pois o hoje se sustenta nos fiapos de pesadelos

***

UMA PÁ DE BRASA PARA SEMEAR O INFERNO (Lanoia)
No meu coração
assombrado em vão

não há devotos

há sapos e serpentes
pelos cantos contentes

decorando maldição

e fantasmas dos mortos
que arrastam correntes

com seus elos tortos

acima do chão
onde pisam descrentes