P:P-P

Palavra-Porrada é um ezine mensal com textos que só têm uma coisa
em comum: teor zero de açúcar.

Os textos-porradas não têm que ser agressivos. Não têm que ser
violentos. Não têm que ser grosseiros (aqui tem até poema de amor,
mas sem rima de "coração" com "paixão").

A participação é livre e recebemos material até o último domingo
do mês anterior a cada edição. As instruções para envio estão na
guia "Dê Porrada!". Claro que não dá pra publicar tudo o que
chega. Mas a gente lê tudo o que recebe e escolhe cerca de 30
de cada vez.


Este XIV Round traz André de Castro, Benê Dito Deíta, Betty Vidigal, Carlos Eduardo Ferreira de Oliveira, Cesar Veneziani, Dani.'. Maiolo, Diogo Mizael, Dom Ramon, Flá Perez, Giovani Iemini, Isadora Krieger, Izacyl Guimarães Ferreira, Jorge Mendes, José Antonio Cavalcanti, Jurema Aprile, Leo Lobos, Ricardo Ruiz, Romério Rômulo Valadares, Solange Mazzeto e Vlado Lima, além dos responsáveis pela bagunça, Lúcia Gönczy e Allan Vidigal.


Fomos assunto do programa Prosa & Verso da Radio Senado. Dá pra
baixar aqui.

8 de jun de 2010

P:P-P, III Round

21 GRAMAS (Márcia Maia)

pudesse talvez um legista
dissecar-me os 21 gramas
perdidos à hora da morte
e que se crê sejam a alma
encontraria 20 gramas de vazio
um de descrença e absolutamente
nenhuma calmaxxxxxtampouco alma


ADEUS À MULHER BOAZINHA (Kakau Nunes)

Não quero mais ser uma mulher boazinha.
Não vejo glamour em ser uma pamonha...
Quero ser uma mulher má,
Tipo mulher hambúrguer com bacon,
Filé com fritas.
Cansei de ser mulher-salada,
Politicamente correta.

Não quero ser uma mulher de forno e fogão;
Quero ser uma mulher de cama e colchão.

Não quero mais ser a lady da mesa.
Quero ser a puta da cama
E gritar a plenos pulmões:
Foda-se!
Sem ter que dar nenhuma explicação...


ÁLBUM DE FAMÍLIA 1 (Vlado Lima)

meu pai
tinha talento pra perder
perdeu nas cartas
perdeu nos dados
na sinuca
na loteria
nos cavalos
perdeu no bicho
no dominó
no palitinho
no par ou impar
perdeu mulher
perdeu amigos
perdeu o fígado
perdeu os dentes
perdeu as pregas

é a vida! — ele dizia
mas essa ele perdeu também


ALGOZ (Lúcia Gönczy)

De repente
um frio penetra
e a corte, dilacera
Sim, estou sozinha -
confusa, insegura.
Nada que tua presença
não revele
Minha náusea nesta noite
é tanta...
Que quase a meio palmo
entrego-me -hálito ácido
enterrando o dedo
na garganta
...
Mas a noite volta;
não descansa este meu coração
de porre coca-cola zero
Então o que fazer das horas?...
Prescrevo-me e te receito
o dia inteiro – nada de pequenas
doses,
para o tamanho do que sinto
isso, a paixão,
decididamente, não comporta!


BATER DE ASAS (Paulo Gomes)

A inspiração não vem,
a transpiração não escorre,
a ereção não se mantêm...
...algo está errado

Isso nunca me aconteceu,
é a primeira vez,
e assim conto a mesma mentira
sete vezes setenta vezes

Mas está tudo bem,
já era prorrogação,
depois de dois tempos
de um belo futebol arte...

Ela adormece,
no mundo dos sonhos observo
seu busto subindo e descendo,
leve, como é belo o movimento
da sua respiração...

O sono não vem,
Sandman esqueceu-se de mim
e fico acordado, pensando,
sempre pensando...

Vou até a sala,
pego um copo, uísque, puro,
sentando nu na varanda
e o gosto inconfundível de madeira
me faz pensar em seus cabelos marrons...


CIMO (Larissa Marques)

sou querer empírico
responsabilizada de ser
resvalando-me na inércia
de não ser

tento abrir as portas
que me afastam de mim
mesmo condenada
à liberdade insólita
do não poder
cimo

épica e lenta descoberta
corrompida pelo ego
qual Sísifo interno-me
eterna jornada
no subir e descer
da pedra.


CINDER BLOCK (Allan Vidigal)

Ando pouco me fudendo
Pra essas de estranhamento,
Conteúdo, continente,
Significante, significado.
Se um poema for concreto
Que seja concreto armado.
De preferência até os dentes.


CIRURGIA (Betty Vidigal)

Deixei que minha poesia
se deitasse sobre a mesa,
para o gáudio dos doutores.
Em torno, a platéia atenta.

O primeiro bisturi
abre-lhe o ventre. De dentro
– de dentro saltam confetes
e algumas rãs coloridas.

Ouve-se um riso nervoso
da platéia, ali no alto.
Os doutores se entreolham.

Há mais, senhores, aqui,
do que a vã filosofia
pretendia? Talvez menos.

Um delicado instrumento
faz com que saltem-lhe os olhos
das órbitas. E agora?

A platéia, ali, em círculo,
estudantes dedicados
inclina-se lá de cima,
tenta ver dentro do cérebro.

Enrolado a um nervo elétrico,
por detrás do olho direito,
o doutor entre os doutores
retira um verbo indiscreto.

Seria isto, talvez,
que provocava o abcesso?
Talvez. Difícil dizer,
em se tratando de versos.


CONVERTENDO O CÉU(Flá Perez)

Em verdade,
em verdade vos digo, irmãos:
sou caridosa.
Deus seria inútil
não fosse a maldade
em disfarce de boa moça.


DESABAFO (Kakau Nunes)

Não me causa estranheza a morte,
Que é o destino de toda gente,
Mas a soberba dos que se acham eminentes,
Emergentes.

O que me causa espanto
Não é a violação de direitos,
O latrocínio,
A pedofilia,
Mas a arrogância dos ricos de oportunidades
E pobres de caridade.

O que me assombra
Não são as correntes arrastadas
Dos fantasmas da minha memória
São as faces risonhas
Que trazem punhais por trás dos dentes.

Ainda me surpreendo com essa gente
“sou tão boa que não me basto”
“igual a mim, procuro e não acho”
Apenas verborragia indecente...

Chega!
Tapei meus ouvidos
Voltei pro meu umbigo
Entre tantos adjetivos, substantivos e correlatos...
Agradeço a alcunha de ‘bicho-do-mato’.


DESGOSTA(Flá Perez)

Tem quem goste
de sopa fria,
sorvete quente,

poema sem rima,
tem quem goste.

Essa gente tá sempre com fome
e o que vier eles comem.


DESPETALADA(Flá Perez)

Ora séria Flor-de-Laranjeira,
ora ébria Dama-da-Noite
estonteante,

sou flor que não se cheira.

Mal ou bem-me-queira,
flor-que-não-se-quer,
porquê, se não quiser,
há de haver quem queira.


DST (Cesar Veneziani)

Dormimos nós um terço em nossa vida,
Um outro nós passamos no trabalho.
Se é sempre inocente ao ser pirralho,
Ou na velhice, perto da partida.

Quem não teve existência assim sofrida?
A vida é mesmo enorme ato falho...
Não diga "sou feliz", só atrapalha!
O que nos resta é apenas a ferida.

Não perca assim seu tempo, vá e esqueça.
Por mais que você faça ou que mereça,
De ser feliz, as chances são impossíveis!

São fúteis todas as paixões ou crenças.
A vida é a mais infame das doenças
que sejam sexualmente transmissíveis!


ENCANTAMENTO E ESCONJURO (Plínio Drausio)
Oh, luz que dissipa trevas
afasta peçonhas e cobras...

Enquanto houveres
que ajas!

Quer sejas candelabro
ou tênue chama de vela

Almas penadas permanecerão
meras... Sombras... Sobras...

Esconjuro-te, réu!
Em pleito verbal lanço tua sorte

ao inferno do incréu!

Arreda-te rasteira, Píton!
Que engulas tu teu cuspe, Naja!

Te escondes sob o Hijab
maquiada do mais fino véu

Jezabel!

Metamorfos, casulos, mutantes ao bel...
Inerme é o camaleão!

Tu, belle Silhouette — Vero simulacro!
Mas sarapantas com teu chocalho

Cobra cascavel!


FALAVRA (Muryel de Zoppa)

de Guimarães
tatuei Rosa
mas não me entenderam
o traço

não importa

nos espinhos
descobri que sangro
em latim


HEPATOPOÉTICA (Cecília Ferreira)

Meus olhos não serão teus...

As rimas não serão imorredouras,
minha escrita,
(que nunca foi clara)
jamais será tida como bela.

Meu verso,
não levará um lero com estrelas do universo;
e
– provável e malditamente –
não morrerei como quero:
a língua tropeça,
o poema não constrói
e
– órgão que nunca dói –
em mim fará doer todo o resto.


IMUNDA (Flávia Valente)

Mergulho por cima de mim

Criando enchentes tropicais

Preces de paz

Para santos de aluguel

Numa esquina submersa por saliva

No rosto, seqüelas de uma aquarela

Imunda

Mergulho por dentro de uma ilha

Hasteando bandeiras demais

Preces de aluguel

Para santos submersos

Num rosto inundado por salivas tropicais

Vento norte ao lado

Onde se afogam bandeiras de paz


Inunda

Mergulho


A LÚCIDA EM MIM (Larissa Marques)

a lúcida em mim
crucifica meu ser
administra mentiras
tenta ser correta
ser tão concreta

a lúcida em mim
afaga e engana
precede e o consente
meia volta
pra recomeçar

a lúcida em mim
sufoca o precipício
a lúcida em mim
parece não existir.


LUGAR COMUM (Allan Vidigal)

Vou usar e abusar do chavão:
Fazer todo um poema de rimas
Desgastadas, cansadas, cretinas.
Vou rimar “coração” e “paixão”.

Vou usar só palavras banais,
Desfiar rimas burras e pobres
Até que nenhuma mais sobre
No meu velho e surrado Houaiss.

Vou fazer construções qualquer-nota,
E usar, sem ter medo nenhum,
Um milhão de lugares comuns
E as hipérboles mais idiotas.

Não faz mal se for tudo clichê,
Pois no fim resta salvo o poema
Se tiver algo raro por tema
E esse algo, meu bem, for você.


MERECIMENTO (Clayton Pires)
A aliança ficou na pia
do banheiro público,

Onde transamos.

Mas não se preocupe:
Ela é tão sem valor
Quanto a falta
De verdades,
De carinho.

Como nosso laço
Cujo codinome:
-Meu amor.


NÃO EXPLANAÇÃO SOBRE OS MOTIVOS(Flá Perez)

O limite da poesia
é a pauta.
leia nela o que não está escrito.

A fronteira da minha fala
é seu ouvido.
ouça então o que não digo.

A graça da arte é o rebelde,
o proscrito
quero que saiba o que não sigo.


ONDE? (Nilson Moreno)

Achei que ela estivesse já no papo
por nada então sumiu a poesia...
Procuro-a... Você sabe onde andaria?
Está cuspindo abelha? Engole sapo?

Tortura-me a pergunta: em que buraco
está? Por que razão se esconderia?
Ressaca? Está doente da folia?
Acabou paciência, encheu o saco?

Será que onde ela está não tem correio?
Será que ela nem abre mais o e-mail?
Será que se escondeu numa caverna?

Não sei por que sumiu, como abduzida,
também não tinha instinto suicida...
Não creio seja morta, acho que hiberna.


PAIXÃO (Iriene Borges)

Só é bela adormecida
em páginas encadernadas
na estante ou na expressão
pictórica do inferno
doravante (sim meu bem,
teu codinome é Beatriz).

E desinventa almas delicadas:
umedece em febre e muco
até despregar um trapo
desapegado
do “final feliz”.

Alma só tem serventia
até a transformação
do sapo, que depois
magia é esconjuro
entre coxas sacralizado
em meneio de quadris.


Mas Poeta
em rasgos de paixão
escreve a ficção do amor
em cada cicatriz.


PANIS ET CIRCENSES (Muryel de Zoppa)

perca o dedo que aponta
e o que deflora

o dedo que ri
o outro que chora

sê Cômodo
com o dedo que sobra


PAVONES LITERÁRIOS (Bento Calaça)

Ciscam labirintos
de teses
em narciso terreno
galináceo

enxergam-se
na crista da onda

em terreiros vazios
de leitores
destilam suas mágoas
ensopadas na titica

cravam seus esporões
em batalhas literárias
tenho pavor
das penas desses pavones.


POEMINHA CÍNICO (Márcia Maia)

mesmo o mais cinzento dos domingos
diz-se azul quando amanhece

ainda que em meio a terremotos
maremotos tempestades

mesmo o amor mais corrosivo sabe
a mel quando engatinha

ainda que respingue sangue e fel
a cada passo

mais importa o prometido que o
que encerra

à luz dos dias a crua e cínica
e vã realidade

sendo assim seguem sempre azuis
e doces os amores e os domingos

a propaganda é a alma do negócio
bem se sabe


PONTOS DE VISTA (Allan Vidigal)

Não nos cabe julgar
Coisas ditas no leito.

Afinal, depende do lugar
O que é ou não vulgar.
O que, noutro contexto,
Seria falta de respeito;
O que é certo ou irregular;
O quê, como, ou quando dar.

São, enfim, o dito e o feito
Apenas questões de conceito.


SEM TÍTULO (Lúcia Gönczy)

nem puta nem pudica
- apenas pura.
foi assim que a encontrastes
na mira do olhar
beirando o paraíso
doeu tanto que hoje, etérea,
vaga nua
[demonio em hábito de freira]
nem puta nem pudica nem pura
sem portas, migalhas ou chão
devendo-te a transformação
de borboleta em casulo
e se há algo a agradecer, é a ti que oferenda
[nem puta nem pudica nem pura]
o lacrado coração a qualquer sentimento
que não seja recusa, medo, aversão.
...
nem puta nem pudica nem pura
apenas uma mulher, uma ilha,
porção de terra
cercada de mágoa
por todos os lados.


SEM TÍTULO (Felipe Rey)

entre as pernas
nascem rosas.
cresce o desejo:
abertos são os segredos.

todos os ouvidos
sentem arrastar passos
que sacodem cabelos
cadenciando corpos lassos.

meu olhar se prende
e se perde em frouxos laços.


SEM TÍTULO (Lúcia Gönczy)

não tente adivinhar meus pensamentos
nem faça uma leitura do momento;
to fechada pra balanço.
sinceramente eu não penso,
não sinto, não tento.
e, só pra você, no pé da orelha, conto
um segredinho:
tenho objetivos maiores, meu bem;
não sou mulher de metades,
nem gasto vela com defunto morto.


SEGREDOS (Clayton Pires)

Eu tento te contar, Maria
Tenho medo dos olhos
Das horas, dos sinaleiros.

Tenho medo, Maria
As máscaras
Nas vitrines e nas praças,
São falsas e falam.

Eu tenho medo, Maria
Dessa mania
De amar intensamente
E cuidar sem esperar
As palavras, que mentem.

Eu tento te contar maria,
Dos meus segredos
Mas meus pulmões
Vivem encharcados
Pesados, tremendo
E engolindo sonhos

Eu tenho medo, maria.


VÉSPER (Rosa Cardoso)
Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.
Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.
(Manuel Bandeira)


não há nada sob esse céu
nenhuma estrela presente
nada me pressente
só Vésper alheia me paquera

há um teto sob meus olhos
é azul cáustico
escuro e brilhante
estranho

ah, gostaria de vê-la
velar essa luz que insinua
o brilho de estrela nua
já quase ido
esse quase nada de luz
o lusco-fusco a traduz

só tua sombra desliza
em queda livre e fria
se desvia da noite
e busca o sol
que se quebra em cacos,
como devia
e em tantos estilhaços

onde, enfim
você se vê
mesclada à teias de lembranças
em que desfia
o fio dessa trama infinda.

efêmera e brilhante
toda beleza é o instante
todo azul a anula.


ZEFA QUE ME LÊ (Para Vó Zefinha) (Vlado Lima)

essa ânsia/essa azia/essa insônia/essa taquicardia/essa falta de apetite/ os traques/os tiques/as empadinhas de padaria/as crises de bronquite/a desinteria/essa falta de ar/falta de luz/essa síndrome de avestruz: cavar o quintal/varar a vagina da China/violentar o átomo/currar a matéria /desintegrar/ser nada/ninguém/invisível/e não atender ao telefone/não responder e-mails/não receber visitas/e não lavar os pratos/não limpar a casa/não limpar o cu/e secar uma garrafa de White Horse paraguaio /apagar/tremer de amnésia/e apodrecer frente à tv/esse luto/esse escorbuto/esse cristo puto/esse sapo sem sal/esse gosto de gasolina na boca /a alma oca/a grana curta/o tédio farto/a porra louca/ a puta puta/a noite down/esse céu nublado/esse gato preto atropelado sob a cama/mamulengos de lama/pesadelos em câmara lenta/gritos/arrastar de passos/ ranger de correntes/Monga, a mulher gorila!/pirão de piranha com pimenta/tequila-limão-gelo-cacodevidrosalgado com morfina/chiclete de xilocaína/pudim de sangue & gergelim/naufrágios engarrafados no olho de um furacão/promessas de cais/de verão/dias lotados/menstrua dos/monstruados/e esse mother fucker tatuado no verso da minha sina

isso tudo
tudo — segundo os místicos de plantão
é falta de Deus de oração
de Alá Jeová Iemanjá (Saravá!)
não, é falta de malhação! rosnam os pitbulls de academia
de vitaminas anfetaminas camisetas regatas e anabolizantes
já os hippies antiacepipes
dizem: tá vendo?
é carne vermelha é carne de porco
só Dona Zefinha
com seus olhos de raios-X
é quem acerta quando diz
: é tudo tristeza, meu filho!
tudo tristeza
(!)