P:P-P

Palavra-Porrada é um ezine mensal com textos que só têm uma coisa
em comum: teor zero de açúcar.

Os textos-porradas não têm que ser agressivos. Não têm que ser
violentos. Não têm que ser grosseiros (aqui tem até poema de amor,
mas sem rima de "coração" com "paixão").

A participação é livre e recebemos material até o último domingo
do mês anterior a cada edição. As instruções para envio estão na
guia "Dê Porrada!". Claro que não dá pra publicar tudo o que
chega. Mas a gente lê tudo o que recebe e escolhe cerca de 30
de cada vez.


Este XIV Round traz André de Castro, Benê Dito Deíta, Betty Vidigal, Carlos Eduardo Ferreira de Oliveira, Cesar Veneziani, Dani.'. Maiolo, Diogo Mizael, Dom Ramon, Flá Perez, Giovani Iemini, Isadora Krieger, Izacyl Guimarães Ferreira, Jorge Mendes, José Antonio Cavalcanti, Jurema Aprile, Leo Lobos, Ricardo Ruiz, Romério Rômulo Valadares, Solange Mazzeto e Vlado Lima, além dos responsáveis pela bagunça, Lúcia Gönczy e Allan Vidigal.


Fomos assunto do programa Prosa & Verso da Radio Senado. Dá pra
baixar aqui.

9 de set de 2010

P: P-P, VI Round

ÂNIMA (Cesar Veneziani)

Atiro meu beijo
___como um tiro certeiro.
Minha seta de cupido
___te penetra e empala.
Tua ânima cala,
e em minha ânsia
___sou teu.


AS INSOSSAS DESVENTURAS DO CAPITÃO-QUEM? (Vlado Lima)

segunda-feira é sempre-um-parece-que-é-assim-mesmo
o espírito do Dirty Harry baixa em mim
e eu viro um cara ruim
com vontade de comer torresmo
e cuspir impropérios contra os chegados do síndico

em dias assim
tranco-me por dentro
(de mim)
e não saio nem pra passar fax
viro uma lagarta largada
de pijama
pantufas
e uma penca de Caras do século XVII
minha casa, meu casulo!
meu coração, minha couraça!
minha cabeça, minha casamata!

em dias assim
entrego-me ao oficio dos vultos
sou menos que nódoa
não mais que uma sobra de sombra
um borrão de nada
aquele-um que não é
aquilo-outro que não está
eu inexisto

em dias assim
minha insignificância
(fermentada entre as lentes de um Ray-Ban paraguaio
e filipetas de disk pizza)
brilha em braile
sob o céu do subsolo da cidade

é um pássaro?
é um avião?
não...
é o Capitão-Quem? e sua capa de invisibilidade


BARFLY (Allan Vidigal)

Sonhava ter no copo dois dedos
das águas abençoadas do Lethes
e esquecer-se de si em degredo;
e achar refúgio, ainda que breve;
mas é a visão da própria dor
que o fundo do copo reflete.
E a boca do copo é o Equador:
abraça seu mundo e o circunscreve.


BOCA (Solange Mazzeto)

boca que te quero boca
rodeando meu cérebro
derrotando meu mistério

acessando meus arquivos mortos

boca que te quero boca
ao redor do meu mamilo
[não pedirei pra mordiscar]
você sabe onde vai dar

boca que te quero boca
aprofundada no meu ânus
boca que te quero
toda


BOCA SUJA (Paulo Gomes)

Quem sabe se eu fosse filho duma puta,
e meu pai um verme covarde
Quem sabe tivesse medo,
me ajoelhasse perante seus desvarios

Mas não, eu que já abracei a dor,
de formas que vocês nem podem imaginar
Que já sorri ao sangrar e sangrei rios aos chorar
não vou me dobrar

E se meus músculos não aguentarem que estourem,
se meus ossos não forem fortes que quebrem,
meus princípios, meus ideais,
não tornarão-se cinzas

Cantarei ao lado de sereias,
arrancarei a cabeça da medusa
Conquistarei o coração de afrodite,
beijarei a boca da morte

Às três irmãs gêmeas do destino meu mais sincero FODA-SE

Parto com um sorriso na boca,
cicatrizes no corpo,
histórias nos olhos,
um peso que nunca irão entender


CÁLICE (Lúcia Gönczy)

ora, não me querias distante?
pois toma agora
mais um trago de ausência
já que da minha permanência,
nada valeu, nem foi o bastante.


CAROCHINHA REVISITADA (Flá Perez)

Quem quer casar
com a Senhora Baratinha
que tem tinta no cabelo
e muito fogo nas calcinhas?


CIRCUNCISÃO (Cesar Veneziani)

a pele sobra
___e cobre

o apelo cobra

o corte recobra
___a obra


CORDEIRO DE PELE (Cel Bentin)

Irreconhecível ovelha negra. Agora vivia a descer ao inferno das lãs para arriscar espiação de tempos em tempos, sempre louco para encontrar (a malharia crua).
Jurava: embolaria todo de graça nela.


ELEMENTAR, MEU CARO WATSON (Vlado Lima)

morta a poesia
na biblioteca
com um tiro no peito
Holmes diz: ou foram os poetas medíocres
ou foi o mordomo
( . )


ESCOLHA (Allan Vidigal)

Não creio em pecado:
prefiro o profano
ao santo e ao sacro;
o laico ao sagrado;
o século, o sexo
ao céu e ao casto.

Trago-me ereto -
jamais genuflexo.


ESPUMES (Lena Ferreira)

Não queiras julgar-me a conduta
-vomito a alma; cheia à boca-
letras, tantas, tresloucas
maníaco-resolutas

Cansei! Ceder? Vou à luta!
Gritar, preciso, qual louca
Coragem, outrora pouca
Abraça-me qual prostituta

Não queiras julgar-me; não mais!
Pois me descobri bem capaz
De andar sem tuas bengalas

Se entendes ou não, tanto faz
Silêncio? Tu nada falas?
Espumes a verdade que inala!

ESTRETICHE (Maicknuclear)

Estretiche. Perdida no metro um tanto quântica.
Um cálculo infálivel. Soma de um velho título. De uma velha decadência pertencente aos anjos que caem bêbados no chão: a beleza do inferno... Derrama o cósmico mágico no que já é explícito ao sermos nós mesmo! Esparrama essa vital (im)pulsação desesperada. Estratégia!.
Vai. Some no retrovisor. O portal derradeiro das coisas inseguras, como fogão em finas placas polares. Milhões de quilômetros a um palmo de distância. Vem. Te espero no lúdico. Aquele com bandeirinhas de países e luzes heinecken...... quem sabe somewhere over the rainbow, quem sabe no frio vazio do estacionamento desbotado-cinza, ei, señor: don' think.
-Think Ludic
-Tá vendo como você é foda. Já temos o nome do nosso bar - todos são foda com o vento a favor, mas ei, señor: don' think: Think Ludic.
Vai. Cintila noite aqüosa como suores de garrafa trincada. Todo seu lúdico raiar iluminando manchas em calçadas, lavando almas artificiais que surgem na vereda de um licor que não desce.
Já viu asfalto azul? Coisa boba, mas nada se iguala. Vem. Fetiche.
Reverbera a luz do poste em minha rima entrevada. Meu beco favorito é o diabo no corpo das que tocam guitarra. Reluz cabelo ouro bruto, com proposta cênicas, cheiro-cio saindo pela boca. Expelindo conhecimentos profanos e tornando um louco, sultão.
Imagens, amostras delas, rabiscadas em sugestões sensuais de panos malucos.
-Aqui tá tanto frio.
-Então: gruda!!!!
-Amo esse seu jeito maloqueiro...
Maloqueiro...
...gostei da definição!


FALBALA (Flá Perez)

Durante o banquete
os homens desejam
a linda gaulesa
da trança comprida
na sobremesa.

O guerreiro Asterix
o Bardo , o ferreiro
o chefe , o peixeiro
o pedreiro Obelix.

Mas a linda gaulesa
da trança comprida
após o banquete
fugiu da aldeia
com o velho druida.


FÉ POÉTICA (Flá Perez)

Chega da poesia de proveta,
pinaco - bibliotesca,
de sinônimos e antônimos
riscados nos dicionários.

Farta da poesia com muitos olhos
sem nenhum cheiro e nenhum sonho,

peço a que nunca espera
ser possuída
e vai de encontro.

A concebida
sem consciência do pecado
nua em pêlo,
no mais completo abandono.

Quero os versos recitados entre as pernas,
escritos no travesseiro.

Quero a poesia que me morde a boca,
e o poema que me vem
inteiro.


HORIZONTE DOIRADO (Cel Bentin)

afirmada fome
que o cerrado mata

a paga clara
em carnês de soja


LUGAR (Ruy Villani)

Meus olhos se esgarçam
Se desfazem em remelas
Embora tanto belas as imagens
Que guardam silenciosos

Meus olhos ciosos
Insistem em ainda ver
Por mais que através de lentes
E olham às vezes até contentes
Esses olhos cansados
E carentes de luz.

Meus óculos se perdem
O p'ra perto e o p'ra longe
O de conduzir carros em estradas
E o de ler poemas, frases desgarradas,
O de te olhar, mulher, o de te olhar atento.

Me fio em lente, consinto e me ausento
De estar ao lado de quem mais me faz bem
Mas, às vezes, cego de outros olhos
Meu bem, eu nem te via, nem me apercebia.

Permita-me, cego, te achar por tato e olfato
Por audição reaprender a lição.
Oferte-me, como sempre o fez
A breve oportunidade
De reconhecer meu lugar
E olhar, como mero e encantado turista,
O todo de minha cidade.


NADA ALÉM (Tim Soares)

Eu não sou nada
Além de poeira
Nessa cidade leprosa
Entre devaneios e veraneios
Movidos a benzedrina

Além do alforge
Do caçador de totens
Do garimpeiro
De topázio e acácias

De um coração orgânico
Fora do rítmo
Apertado e dolorido
Pelas ranhuras acumuladas


NAVALHA (Claudio Macagi)

Claro é o dia
Que não adia
Turva é a mente
Daquele que mente

Reluzente não é o ouro e nem a navalha
É deveras o couro daquele que trabalha

Abstrata não é a tela
É a promessa que reza a vela
Liso não é o piso
É o político e seu sorriso

Não sou eu que fico à toa
É o ladrão que curte e zoa
Me chama de louco quem não aceitar
Que eu saiba das coisas sem ter que pagar

Cega não é a lei
É o juiz que se acha rei
Pobre não é o povo
É o faminto que atirou o ovo

Na testa do homem de terno
Que come caviar sorrindo pro inferno


PACTO (Clayton Pires)
não é paixão

é instinto

essa vontade
de entrar
em sua pele

e fazer cobertor
pro meu espírito

(...frio)


PAI (Cecilia Ferreira)

Saudade doida
_____saudade doída
_________saudade invade
______________ou estava ali
__________________esperando a hora
____________________de mostrar a cara
_______________________de marcar a pele
_________________________de roer os ossos
_____________________________devorar por dentro
_________________________________de virar lamento
____________________________________de fazer chorar
__________________________________essa gota eterna
___________________________que não rola salta
_____________________que não chega assalta
__________________que nos mata e cala
_____________não a dor a boca
________essa coisa louca
____que ninguém explica
nos meses sem ver
o que em nós vivia
_____e que não doia
_________e passa a doer
_____________essa dor eterna
_________________que nos trava braços
_____________________que amarra pernas
_________________________num ciclo de sangue
____________________________e em moto-perpétuo
_________________________________será só saudade
____________________________________doida saudade
____________________________________doída saudade
________________________________invade ou estava
_________________________ali esperando
_______________________a hora de mostrar
__________________a cara de marcar
_______________a pele de roer
___________os ossos devorar
_______por dentro de virar
lamento de fazer
saudade doida
______saudade doída
____________saudade invade
____________________ou estava ali
_________________________esperando a hor...


PALAVRAS SÃO VAZIAS COMO FLORES PLANTADAS EM VASOS COM SAL (Tiago Volpato)

O frio é doce:
o olho negro
penetro;
sou puramente selvagem.

Um punhado de ôz;
três dedos de êz;
em fôrmas de...

Perdão;

Receba minhas desculpas,
por tão tolas palavras.


PELO SIM, PELO NÃO... (Clayton Pires)

Nessa madrugada,
uma gata manhosa
subiu no muro de casa
e ficou atiçando meu ouvido.

Eu, Gato escaldado, peguei
umas palavras de chumbo
e atirei no rabo dela.

não era assim que queria?


POUSADA (Clayton Pires)
Quando quer carinho...
- te dou só um pouco (e basta)
pois sei que você é que nem
passarinho

vem se enche e vaza


SAUDADE PROFUNDA (Ruy Villani)


Fui ao fundo do direito
De sentir saudade.
Emoção comum
A todos os torcedores
E a todos os militantes.
Qualquer que seja
Time ou partido.

Partido, meu coração
Altamente recuperável
Sente, de tempo em tempo
Essa inevitável saudade.

Do que já foi, do que deveria ter sido,
Do que foi interrompido
E do que foi ao fim do trilho.

Tenho saudade de filhos
Que já não moram comigo
E do tempo em que moravam.

Tenho saudade de gente
Que há muito já não vejo
Com quem até namorava

Tenho saudade de monte
E não me sinto inseguro
Porque saudade, a gente sente,
Sempre e sem medida
Por razões indefinidas
Até mesmo do futuro.


SEROTONINA (Dom Ramon)

Uma nota entre um copo e outro...

Se há qualquer coisa de essencial ao homem enquanto felicidade, essencial ao homem enquanto interação entre ele e o mundo, satisfação, virtude, Bem: tal é: 5-hidroxitriptamina: O nome de Deus.

Serotonina. Uma má transmissão cerebral de serotonina está por trás de grande quantidade dos sofrimentos dos homens, logo, de suas filosofias. A ataraxia dos velhos romanos pensadores, a beatitude dos crentes, o exercício de liberdade dos homens liberais. Como ratos em seus exames de laboratório, inventamos nós, bípedes implumes, demandas da razão, historietas, anedotas com o intuito racional quase inútil de, por si mesmo, alcançar um estado ininterrupto de satisfação. Mas em verdade, a razão quer morrer, ela é suicida: racionalizar é desejar acabar com um infortúnio, sem infortúnio, sem pensamento. O êxtase, ou o orgasmo, por exemplo; momentos sem pensamento. Quando um homem diz - "Quero Deus, quero a verdade, quero a virtude...", em verdade diz: - "Quero chocolate". Chocolate estimula a serotonina.

Vejo esses outros proletários no bar, bebendo e comendo salaminho tipo italiano. Pobres coitados. Bebo minha pinga, mas com uma barra de chocolatinho. Graça Divina por 1, 50 c. Nada mais prático.


TELEPÁTICAS (Lúcia Gönczy)

minuto a minuto
som depois do som
a voz do poema
é o silêncio
silente, a terra
trama teu nome
sísmica, cisma de ser outono
de janeiro a janeiro...

- a partir de hoje
só vou me alimentar de Sol.


VÊS? (Clayton Pires)

Quando passas,
ainda passa
uma montanha Russa
aqui dentro.

de quem é a culpa?
não sabemos...
...só sei do efeito.


VIDA, MORTE E RESSURREIÇÃO DE FRANCESCA (Tiago Volpato)

Pela porta;
observo o nascer crônico de uma morte anunciada
é por ouvidos pútridos
{que zunem com o som da bala}
que atravesso seus neurônios à procura de Odin
sou a luz morta do espetáculo
enquanto suas cordas vocais vibram com a teoria dos movimentos
há um balançar caótico
semelhante a trajetória inigualada de uma luz
(negra ou)
disforme;

Estou diante de seu túmulo
cheiro de azaléia
(gritante)
diluída em ar úmido
ela é duas partes cadáver
um terço paixão
nove e meio minutos para voltar
seis e doze dias para me matar
depois disso...
... caveiras tocam harpas.


VOZES (Celso Mendes)

Estou à espreita.
Não se preocupe:
só quero seus membros esquartejados,
sua genitália recortada,
seus olhos
e seu coração
em minhas mãos.

Não quero seu sofrimento.

Misérias me consomem,
histerias coletivas me alucinam,
sexo só é pecado
se for com amor.

Alimentem minha esquizofrenia
senão o mundo perde a graça
e o silêncio das almas se fará.

Preciso das vozes me contando os porquês.
Sem elas não suportaria a sordidez
desta ironia patética que me cerca.

Sem elas o sangue dos inocentes
não escorreria mais em meus braços
se empoçando docemente em meus pés...