P:P-P

Palavra-Porrada é um ezine mensal com textos que só têm uma coisa
em comum: teor zero de açúcar.

Os textos-porradas não têm que ser agressivos. Não têm que ser
violentos. Não têm que ser grosseiros (aqui tem até poema de amor,
mas sem rima de "coração" com "paixão").

A participação é livre e recebemos material até o último domingo
do mês anterior a cada edição. As instruções para envio estão na
guia "Dê Porrada!". Claro que não dá pra publicar tudo o que
chega. Mas a gente lê tudo o que recebe e escolhe cerca de 30
de cada vez.


Este XIV Round traz André de Castro, Benê Dito Deíta, Betty Vidigal, Carlos Eduardo Ferreira de Oliveira, Cesar Veneziani, Dani.'. Maiolo, Diogo Mizael, Dom Ramon, Flá Perez, Giovani Iemini, Isadora Krieger, Izacyl Guimarães Ferreira, Jorge Mendes, José Antonio Cavalcanti, Jurema Aprile, Leo Lobos, Ricardo Ruiz, Romério Rômulo Valadares, Solange Mazzeto e Vlado Lima, além dos responsáveis pela bagunça, Lúcia Gönczy e Allan Vidigal.


Fomos assunto do programa Prosa & Verso da Radio Senado. Dá pra
baixar aqui.

7 de out de 2010

VII Round

ÁGUA (Ruth Cassab Brólio)

Mágoa, alma crivada a bala.
Boca, não consente e cala.
Terra árida, casa e vala, a vida.
Trégua, o peito, um poço fundo,
em grotão brota olhos de açude,
e extravasa, sem verbo, nem rima
a mansa, cálida palavra-água.

Lágrima.


ARMA BRANCA (Ruy Villani)

Uma dessas coisas
Que não se diz, não se lamenta
Não se agüenta.
Uma dessas coisas
Bem guardadas, escondidas
E assim mesmo, escancaradas.

Uma luz desde o prosaico fim do túnel
O tonel que oferta sempre um copo a mais
O jamais que fica sendo cotidiano
O insano que insiste em ser normal

O jornal das mesmas notas, dia a dia
Minha pia crença em plano e linha reta
Abjeta, renegada, insistida
E, contida, é refém de realidades.

Nem poetas, nem algozes, nem palhaços
Nem os traços mais distantes de mim mesmo
Me permitem percorrer, à toa, a esmo,
Um caminho diferente do proposto.

Isto posto, baixo a guarda, entrego a espada
E persigo, lance a lance, essa escada
Que não sobe e nem desce, apenas mostra
O que sonhava ser tudo, e hoje, ainda assim,
Tão desmascarada
Não me disse a que veio o escudo
Nem a arma, que se esconde, inanimada.


ARREDIA (Flá Perez)

Égua brava,
cheia de balda,
se encanta com espora
e fome.

Maltrate,
deixe-me uns dias
sem água

só então me dome...

B(R)AILE (Sylvia Araujo)

Sou
inteira
pedaços
fragmentos
cortantes
sílabas
impronunciáveis.

A lápis
me escrevo
à espera
de quem
me soletre
os relevos

- em braile.


BARBARIDADES (Allan Vidigal)

Conhecermo-nos na cama tu e eu de olhos vendados,
descobrirmo-nos no escuro pelo toque, em Braille,
[às cegas.
Te fazer gritar e, após, enquanto em gozo ainda
[ofegas,
começar tudo de novo, mas, agora, do outro lado.

Despejar sobre o teu corpo mel e leite condensado,
explorar, com boca e língua, cada dobra, curva e
[prega,
e jamais nada negar a quem jamais nada me nega:
oras, bolas, convenhamos, o que pode haver de
[errado?

Ter-te assim não sabe a vício, baixaria, nem
[maldade.
Desbravar a tua pele, conhecer cada orifício,
mapear o teu prazer e toda a tua anatomia -

é normal para um casal que tanto ama ter vontades.
E os pudicos que criticam e que dizem ver mal
[nisso,
não os culpo: sinto pena. Têm inveja, é o que eu
[diria!


O BASILISCO (Dom Ramon)

Escrevo, pois vou mal com os olhos. Furaram-lhes; minhas maléficas retinas! Escrevo pelo sangue retido em uma escama retirada. Indolor.

Nada tão risível quanto um temperamento abrandado. Maleável, dobrável, ao bel prazer e divertimento do escrupuloso e inescrupuloso. Da mais fina moral e dos mais moderados manejos gestuais, sincero o bastante para ruborizar em contradição e avesso a afetação de nossos aclamados bonachões, são dos tipos os mais degustáveis. Refiro-me a todos esses tipos médios como objeto de uso. Convenhamos, o predador é mais sapiência da mesma do que a própria pressa

Entre essas ruínas de um sonho de Império irrealizado, em alaridos confetes murmúrios, máscaras de Carnaval, passeia o cornudo a ceiar.

Pois bem. Digamos em tons claros: Um colega franzino, um desavisado cliente bancário, uma pietista frágil, um burro opostunista, gente simples e esperançada demais, uma poltrona. Sustentáculo móvel de uma vida malandra, anseio soçobrado de atormentados versadores. E é assim, as pessoas gostam de ler cartas com sangue e suor, e não gosto de escrevê-las. Palavras, palavras; extemporizam a sensação e a diluem em perspectivas. A realidade em cru é suficiente e muda, acausalidade vil, chamada diabólica ou desumana, tanto faz, vai pela sua credulidade. Ou má fé. Nossos consagrados mentirosos, até por dizer, sagrados, não são feitos de muito mais.

Mas ainda em meandros e rondas noturnas na experiência, furaram meus olhos. Abandonou-me o cornudo com bagaços do mal. Sufocado por meus próprios calabouços, ou cristalizado pelo ódio inocente das vítimas tantas, ou sobrepujado em meu debalde de parecer, inevitável encontro com o mero ser. Já não sou visto se não como sombra e sinistro, e meus olhos só resplandecem martírio.

Morto, sendo vivo. Meramente, e irreal.



"Má Consciência é como denominamos um desejo reticente de algum remorso casual, uma hipocrisia amigável, ou mesmo uma vaidade mais ególatra. Sempre espirituosa a má consciência, quando negada - Pela boca".


CAEM AS MÁSCARAS DO MEDO... (Flavio Dario Pettinichi)

Caem as máscaras do medo no final da tarde
Corpos andam nus e a orfandade do amor cega a
[sua fé
Quem recolherá as lágrimas de dor na poesia
[amputada?
Enterraram mistérios na procura de uma solidão
[iluminada
E nada colheram nos áridos desertos das suas
[desgarradas almas.
Rasgaram as peles nos rosais de espinhos rasos e o sangue coagulou como a palavra que esconde o medo
Nas mãos frias vão sentindo a mortandade do canto e espavoridos correm à um lugar que já não existe
Fizeram da raiva a sua oração e do perdão um poema sem rima engasgado na voz
Há rigidez no seu olhar e o horizonte é um ponto negro onde não existe possibilidade de fuga
Já cuspiram todo o fel que tinham guardado nas suas entranhas e agora o estomago grita a chaga do olvido
A espuma escapa de seus dedos e esvai-se na agonia
[dos seus sonhos abortados
Agora já é tarde, a praia está deserta.


CALO (Norma Santi)

Calo-me eu.
Por quem calas tu?
O calo da vida. O silêncio da boca.
O calo marca, em ásperas camadas,
As dores da pele fina.

O silêncio é o calo do grito
Marcado em curvas do infinito.
O calo é duro,
O calo é nobre,
O calo é a pele que me cobre.

O calo é o registro do tempo,
O calo é a cápsula da lágrima,
O calo sob o pés, os passos da epiderme.
O calo vocal.

O calo são nossas dores
Voltadas para o lado de fora
Espessas,
Explícitas,
Escancaradas,
Paradoxalmente ensimesmadas.

O calo empilha e circunda as horas caladas
[de nossas vidas.


CANTO APOCALÍPTICO (Betty Vidigal)

O bico dos pássaros tem algo de ameaçador.

As flores saltam de suas corolas, agressivas.
O perfume das rosas contém uma advertência muda:
as rosas podem ferir.

Cada onda que arrebenta é como um grito;

Os segredos que a terra inda esconde são terríveis,
Tão incompreensíveis para nossa orgulhosa
[sabedoria:
Senhores do universo,
Entendedores do mistério atômico,
Reis.

O bico dos pássaros tem algo de ameaçador.
As rosas podem ferir.
Existe uma agressividade controlada na cor de
[cada pétala.

É isto, então, o que se chama "primavera"?


UM DIA DE FÚRIA OU DESEJO DE MATAR 1535 (Vlado Lima)

Bradesco
3 horas e 19 minutos p.m.
243 metros de carne humana suada numa quinta
[-feira santa
uma récua de caixas em marcha lenta
e um olho de peixe temperamental

PRÓXIMOOO!

tô só o pó
no bagaço
osso só
tô no talo da rabiola
tô na tanga atolada
no vácuo do corvo
entre o infarto
e o never more
tô no limite
na pressão
além do alerta laranja
tô no vermelho
tô azul-azedo
tô na regressiva
3
2
1

PRÓXIMOOO!

penso na barriguinha cheia da minha velha Luger

PRÓXIMOOO!

hoje eu poderia invadir uma escola primária do
[kentucky
e fuzilar meia dúzia de pequenos republicanos

PRÓXIMOOO!

hoje eu poderia Jogar um 747 contra a Esplanada dos
[Ministérios
dinamitar o Louvre
ou explodir a embaixada argentina na Moldávia

PRÓXIMOOO!

hoje eu poderia correr o Serengueti fantasiado
[de gnu
gritar Palmeiras no meio da Fiel
ou dar um tiro no cu de um folgado qualquer

PRÓXIMOOO!

hoje eu seria Gaetano Bresci
Carlos Ramires
Chico Picadinho
hoje eu seria Willian Foster

(...)

Bradesco
4 horas e 30 minutos p.m.
plano de saúde? em dia
tv a cabo? em dia
27ª prestação do carro? em dia
aluguel? em dia
escola das crianças? em dia
não matei ninguém
não soquei ninguém
não empalei ninguém
não detoenei nada
e o segurança simpático próximo a porta giratória assobia um samba do Zeca

PRÓXIMOOO!

Vou botar meu coração-cuzão em banho-maria
e levar meus leviatãs pra queimar as varizes no
[litoral

PRÓXIMOOO!

eu seria um Charles Bronson se não fossem os
[feriados prolongados


ENCOURAÇADO (Dom Ramon)

"Anelo, couraçado, ao destruir de ondas.
Anelo, encouraçado, reluzir, das chamas... (...)"

O mar já não é como outrora, o tarantar continuado dos charcos, apedrejados, clama velho sentido de alerta. Duas, são as mãos do Destino; relembra meu bramir interior, e com uma a destruição procurada, a destra, e com o sinistro a misericórdia.

Agarra-me sinistro!

Moço, jovem, fresco de sonhos, calejado pelos monstros marinhos, pelos monstros, nos homens, envelhecido, constrangido, vertendo em tenebroso tempo, coragem de vida, ou de morte. Vertendo pelos ventos, pelas ondas, nas rochas. Erguida muralha de pedra, resiste ao mar, erguida e por ela, em frente, sem temor ou terror.

" (...) Suprimido de raiva, resistência, bravura.
Entre as pedras do rochedo, de qualquer praia".


ENSAIO PARA UM VOO CEGO (Celso Mendes)

Estanca esta minha reza antes que eu confesse
meus dissimulados tempos de angústia incrustada,
forjada secretamente com palavras mudas entre risos
[breves,
olhares distantes e meias verdades.

O amargo que exalo da língua é a minha defesa
e a lança que aponto em teu peito me fere na alma.

Não deixa que eu diga o que sinto,
que eu sinta o que penso,
que eu pense que sei já saber ser vodu de
[mim mesmo.

Pois hoje eu queria fazer um poema cortante,
que sangre, que vaze dos olhos, que verta o veneno.
Por isso preparo um altar para o sacrifício:
que o doce lirismo se queime na verve maldita
e o olho dos ventos me arranque essa pele de santo.

Devolva-me cada delírio e meus sonhos alados,
vomita esses meus pedaços que já mastigaste,
retira de minhas entranhas as tuas matizes

e impeça este meu ensaio de um voo ao inferno.


ERRO (Betty Vidigal)

Algum erro foi cometido
que nos tornou perdidamente humanos.
Impossível resistir.
Obedecemos às leis que regem a vida dos colhidos
[antes
e sofremos as consequências disto resultantes:
jamais seremos livres.

O peso de ser vivo sempre nos oprime;
os companheiros um a um nos abandonam.

Sem dor.

Sem remissão.

(Quem nos fez humanos não tinha coração.)


ESTOU DE SACO CHEIO... (Flavio Dario Pettinichi)

Estou de saco cheio de carne podre nas prateleiras
Neste mercado da vida tem produtos perecendo
E não há inspetor suficiente para controlar o caos
A putrefação tomou conta da humana poesia

Tenho pena dos feridos da gangrena do ódio
Tenho lástima dos que vão à missa sem pecados
Não tenho compaixão pelos infames que amam só
[de pau duro
Cuspo na cara do poema que fede a palavras vazias

Acabou senhores! O Poeta está sujo e imundo
[como todos.
A pestilência tomou conta das saudades e no seu lugar ficou um copo quebrado com gotas e sangue
Agora é o tempo das desertas miradas e nas miragens só aparecem anjos mutilados de amor
Acabou senhores! A poesia está corrompida pelas almas obsessas e vomita cacos de vidro no jardim da suas casas, coloquem seus coturnos!


O GALO (ükma)
O canto do galo dá vida à navalha,
gargarejo com espinho
que invoca o diabo na madrugada sem fio.

"Empurrar o mal para dentro de uma garganta
[rasgada"

E com a ponta afiada, desenho em meu corpo
a lembrança aflita de um bicho cego de crista
que molestou sem dó uma alma bendita
com sua toada de morte.


GOSTEI DELE... (Lúia Gönczy)

"gostei dele; tinha cara de prego - bati firme,
[furei parede
- agora é ele que me atravessa"


JAGUNÇA (Flá Perez)

Se quer mesmo saber :
nunca desisto.

Rasgo bandeiras,
pego em navalha
-ela sabe artéria e veia -

e se for preciso,
abro o cabra a golpes de peixeira.

Feiticeiro abençoou,
então
não adianta levar mais gente,
que a gilete a faca a forra
sabem destreza
sabem certeiras
vão na certeza

- não há defesa que aguente -

Posso ser premeditada
ou num impulso
eletromagnético,
puxar o pino da granada
quando ele estiver dormindo
(sem escudo)
e não poderá fazer nada.


LAPIDAÇÃO (Ruth Cassab Brólio)

Sonho de uma noite de verão,
Ou pesadelo.
O tempo é o ano mil,
Cena, Ibiza, Espanha.

Havia um clima de festa.
Trajavas toga romana,
Bem recostado à montanha.

Eu era nua em pêlo,
Fugida de alguma floresta.
Afogada, imersa ao chão.

Na tarde luminosa e fria.
Ou seria
Em versos, o inverso?
De certo, tudo ao contrário?
Quando as cenas retornam,
Independem do cenário.

Flash luminoso à testa,
Em meio ao sangue que medra.
Melhor, bem melhor assim.

A ser o algoz
Ou a pedra.


LIXO TÓXICO (Flá Perez)

Sangro mais que pelos pulsos,
olhos, boca.
Sangro idéias obscuras.

Desato o torniquete
- não houve tempo pra sutura -

do corte escorrem
algoritmos, radioatividade
manias,

palavras desconexas,
puzzles, poesias.

Cheia de ódio,
ainda assim gozo

atônita,
olho o papel,
as linhas.

E amasso vestígios,
varro-te,
atômica ventania!


MANDÍBULA(Flá Perez)

Não corta
com faca
a fruta.

Tira
a casca
com os dentes

morde
e chupa.

Mandíbula forte!
Mordida cruzada!

Trinca
conceitos.

Destrincha
osso, pele,
nervos.

Racha
Restaurações
e defeitos.

Rasga
o verbo.


MINHA VOZ (Rosa Cardoso)

faço versos
nessa língua estranha
que você adivinha

falo em desalento
em desencanto
com palavras sonoras

o som devora
as tristezas que embalo
e você ignora


A MUSA MUDA (Allan Vidigal)

Às vezes, a musa
- por pura pirraça -
não nos dá o ar da graça,
nos ignora, reclusa,
e desaparece.

E não há o que a faça
- súplica, prece,
berro, ameça -
mudar de conduta:
só vem essa vaca,
só fala essa puta,
se bem lhe apetece.


NÃO TEM NOME (Rosa Cardoso)

o céu dispara seus dardos
setas azuis lancinantes
fiapos de sombra rastejam medos

cismo anjos
livros sedados
fogueiras e selos
sexo e mentiras

tudo cai

enredadas pelos cantos as meadas desfiam
longos rosários de verdades entrecortadas
os anjos segredam revelações
em meus olhos moucos

queria que contassem dos desenhos
das tramas traçadas
dos ardis pintados na areia

mas eles sussurram sem parar
cegando teus encantos

queria que ouvissem
essas notas dissonantes e embaraçadas
sopradas no avesso da trama

distraída pela algaravia de cores
despedaço teu olhar surdo
espargindo cacos
vitríolos em que refulgem incêndios


NOITE INSONE (Nilson Moreno)
Em sua última noite insone
você cantou, dançou, bebeu?
Passou frio e passou fome
soube que o filho era seu?
Foi subida inspiração
fogo mandado do céu?

Em sua última noite insone
o que foi que aconteceu?

Foi repetindo a rotina
foi naquela sexta-feira?
Foi delirando sozinha
foi curando a bebedeira?
Foi brigando com a vizinha
foi vestida de enfermeira?

Em sua última noite insone
o que lhe acontecera?

Foi dia de casamento
o romance te prendia?
Comemorou o espetáculo
foi doença na família?
Desmoronou o barraco
engravidaram sua filha?

Em sua última noite insone
o que é que acontecia?


OBSESSÃO EM GOTAS (Vlado Lima)

jantou
fumou um cigarro
e escovou os dentes
depois afiou a faca de churrasco
esquartejou a esposa
e jogou os pedaços na caixa-d'água

de madrugada
sentou-se junto a pia
abriu uma fresta na torneira
e contou as gotas de carne
bem me quer!
mal me quer!
bem me quer!
mal me quer!
bem me quer!
(...)


ORANGOTANGO (Lúcia Gönczy)

ser macho não é bater no peito, coçar o saco,
casca grossa, gabar-se das comidas
macho é mais que isso:
consciência da fêmea; respeito.
sensível, abrir os braços, estreitar laços
entender a língua
ser macho é quase despacho; encruzilhada
galinha preta, farofa, cachaça
e uma pitadinha de TPM antes e
depois da oferenda.
AÍ SIM, macho que é macho
rola o tacho;
capaz , tolerante, amigo
fiel? nem tanto! cada qual tem seu umbigo
e ninguém tá pedindo o impossível...
ser macho, afinal, é tipo João Coragem:
morre na última vírgula
e não tá nem aí pra reticências...
módulo? decididamente não faz seu tipo.
macho não se apega em detalhes,
estrias, celulites ou vertentes...
não espalha nem desdenha
afinal, macho é comum, barato.
ser homem de verdade,
é para poucos.


PÁSSARO (Allan Vidigal)

De olhos vazados, a musa
debate-se, urra - cativa.
Destroça seu rosto com as unhas.

O grito da musa no escuro:
lamento de dor e loucura.

(a musa, canário em clausura)


PEQUENO PRINCÍPIO (Nilson Moreno)
Sou presa então daquilo que cativo
devendo preservar mesma postura
que agrade a tal cativa criatura?
Fui pregado na cruz de um adjetivo!

É dano que não planto e não cultivo
nem vou representar caricatura.
Estranho, o ser cativo é que censura
e o cara que cativa é que é cativo?

Não sigo nem assino o quanto digo
nem convidei ninguém: "venha, me siga!"
eu cuido muito mal do meu umbigo

pertenço a nenhum clube, classe ou liga
Às vezes nem eu mesmo vou comigo
Eu falo aqui sozinho e compro briga.


QUE SEJA? (Lena Ferreira)

Um soco preciso
na boca da alma e
...silêncio.

Que morra o sentimento
antes mesmo de nascer...

Que seja assim
...ou não.
Não sei, bem..

Um grito abafado
sufoca o peito que quer explodir
...não pode.

Não hoje
Ontem talvez...
Amanhã quem sabe...
...hoje não

Lágrimas desenham um verso
no papel borrado de tinta encarnada


Que seja assim

...melhor pra você

.
...e pra mim?


SACRIFÍCIOS (Ruy Villani)

É preciso sepultar os nossos mortos
Sejam eles seres, coisas, fatos ou idéias
É preciso que se vão todos os idos
Para abrir lugar a novas esperanças

É preciso criar novas alianças
Que renovem os grilhões de nossos membros
Que exigem ser atados, não tem jeito,
Mas o peito sempre implora novos ares

É preciso renovar nossos altares
E reavivar a morte em sacrifício
Foi assim e sempre foi, desde o início
Algo morre para dar lugar à vida.

Se hoje poupa-se o cordeiro, a rês infante
Nada há de novo no instante
Em que se verte o sangue em oferenda a divindades
Porque nada se renova das vontades

Extirpamos sempre os corações mais puros
E os ofertamos como alma ao demônio
Ou covarde temor a deuses toscos
Sempre na intenção de alguma sorte

Reconheçamos a morte. O ritual de passagem
Temos dela a imagem de início
Como se pular do precipício
Fosse apenas o ensaio de um vôo.

Me enjôo com essas imagens vulgares
Busco a vida enquanto vida em lugares
Tão mais simples, despojados de oferendas
E, ainda assim, sigo esperando outras prendas.


SEM PANDEIRO OU BANDONEON (José Hamilton da Costa Brito)

A porta se fechou atrás de mim...
Não, não é letra de tango.
Nem sei fazer milonga...nem onda.
Apesar que o tema...pode até ser.
Estas merdas do viver e do perder.
Assim como o samba tem os saberes do céu
O tango é mais batuta para passar, creia,
As agruras de uma vida filha da puta
Dos fracos que morrem no dia-a-dia.
Assim como eu morro a cada instante
Tendo como fundo musical...o silêncio.
Sem pandeiro ou bandoneon...
Isso ,porque você, em uma tarde de outono
Saiu na alameda, pisando as flores caídas
Foi viver a sua vida de perdida.
Passei os verões e os invernos
Conhecendo no corpo,os infernos
E nem a natureza apiedou-se de mim.
E agora, sem ser nada, pois" eu já era"
Peço a Deus que me ajude, me ampare
E me dê, de novo, uma feliz primavera
E de sobra, uma loirinha, assim-assim.
Mais assssiiiiimmm do que assim


TATUAGENS DE PAPEL (Rosa Cardoso)

você chama ,
nesse idioma
ritmado e ladino.

Tirano

entoa loas à toa
em que me aferro

cedo

acredito nesse drama
as palavras desmaiam
a língua desliza

lasciva

penso em Odisseu
traço planos
desenho mapas de fuga

amarro teus pulsos
tapo os ouvidos
desdigo tuas tramas

enquanto pasmas
leio ideogramas
bordo na pele

tatuagens de papel


TORTA (Flá Perez)

Cortar
a artéria aorta

entrar
pela veia porta

beber
sangue sujo
da jugular

Assim mostra
a que veio
a vampira

e na veia
cava
uma cova
ao luar.


TRATO (Cesar Veneziani)

Te amo tanto,
xxxé fato!
E o encanto
é o retrato
do momento.
No entanto
o riso,
xxxde siso a siso,
é ciclo irreversível
que leva,
xxxindelével,
à treva.

Te amo tanto,
xxxé fato,
portanto
façamos um trato:
paramos no meio
antes do "Te odeio"!


VAMOS CASTRAR O MACHISTA!(Igor Buys)
Poema escrito em atenção ao
mote"machão inveterado" ofe-
oferecido pela poetisa Cleusa
Sotsab através da NOP - Nova
Ordem da Poesia.

Vejam: é um machão inveterado!
E de esquerda: sim, é dos pesados!
Antes que o mal se alastre e dê frutos
- mais que depressa, irmãos! -
é de mister esquartejá-lo; suas vísceras
dá-las-emos aos cães e às bichas emos que o pastem!

Abram o Malleus Maleficarum e algum disco de
[platina.
Atentem ao que dizem as Escrituras e as Ranhuras...
Está claro: ainda que ele assim não se defina,
ainda que despreze a essência do chauvinismo-
-catolicista e fascista que, tanto quanto nós,
[o odeia;
ainda assim - de uma certa forma - é um machista!
E o é perante a nossa Sacrossanta Compreensão do-cós-
-e-da-calça e da métrica assimétrica apolítica
[de centro!

Sim: é um machista. Um comedor fanfarrão!
[E doce!...
Chacinemo-lo já! Chacinemo-lo, irmãos, que a
[sua seita,
entre todas as mais brutais e exóticas hoje
[aceitas,
complacentemente, ainda não se afina - com a nossa!
Então, em os santos sagrados nomes de Madame Satã
[e Tio Sam:
morte às diferenças! Aplainem o diferente! Pena de
[corte - já!

Suas partes dividiremos conforme o princípio
[da força.
As lésbicas e os gothic vampires vão ficar com o
[seu sangue.
Minha filha quer sua bunda de louça - bronzeada
[em Búzios;
sob sua túnica lançaremos rifas. Quem dá mais pelo
[umbigo?

Que empáfia a desse Buys: as mulheres que ele
[namora
minhas netas podem ser, e algumas até capa de
[revista
- como ele se atreve: ora, em plena idade do
[lobo!...

Nova Gomorra em peso quer espremer o seu fígado
impregnado de Martini e Dimple 15! E lhe injetar
[cocaína!
Da pura! Da boa!... Mas é que viado pode, machista:
[jamé!

Pode tomar pico na veia e pode assaltar botequim,
mas viciado em mulher... Pô: só se for sexaholic!
- E sacramentado nos Esteites! Aí tudo bem, se
[entende.
Claro: pra cima de moá?...Vamos castrar o machista!

Sua coleção de fetiches vamos incinerá-la e a seus
[revólveres idem
que nada disso é coisa que se permita no mundo-pós
[de Bahá-Barac!

Ah, vamos castrar o machista! O tauromaquista, o
[prestidigitador!
Esse que dá tiros e socos, esse que acredita no
[Homem! E dança!
E canta com a voz pequenina, imitando o Gilberto...
[Laraiá!

Vamos malhar o machista! Enrabar seu cadáver,
[clonar seus poemas!
Vamos, todos juntos, guilhotinar o seu pênis,
[romper seu períneo!
E na próxima Marcha da Família Com Deus Pela
[Liberdade
- em glória - crucificar seus testículos diante do
[Capitólio!