P:P-P

Palavra-Porrada é um ezine mensal com textos que só têm uma coisa
em comum: teor zero de açúcar.

Os textos-porradas não têm que ser agressivos. Não têm que ser
violentos. Não têm que ser grosseiros (aqui tem até poema de amor,
mas sem rima de "coração" com "paixão").

A participação é livre e recebemos material até o último domingo
do mês anterior a cada edição. As instruções para envio estão na
guia "Dê Porrada!". Claro que não dá pra publicar tudo o que
chega. Mas a gente lê tudo o que recebe e escolhe cerca de 30
de cada vez.


Este XIV Round traz André de Castro, Benê Dito Deíta, Betty Vidigal, Carlos Eduardo Ferreira de Oliveira, Cesar Veneziani, Dani.'. Maiolo, Diogo Mizael, Dom Ramon, Flá Perez, Giovani Iemini, Isadora Krieger, Izacyl Guimarães Ferreira, Jorge Mendes, José Antonio Cavalcanti, Jurema Aprile, Leo Lobos, Ricardo Ruiz, Romério Rômulo Valadares, Solange Mazzeto e Vlado Lima, além dos responsáveis pela bagunça, Lúcia Gönczy e Allan Vidigal.


Fomos assunto do programa Prosa & Verso da Radio Senado. Dá pra
baixar aqui.

1 de dez de 2010

P:P-P, IX Round

ABJURAÇÃO (Celso Mendes)

abjuro desta santa que me despe
destas tardes de loucura
desta mão que me esconjura
destes infernos tangentes

abjuro das ilusões carcomidas
das aflições recorrentes
das correntes, das acácias
dos olores multicores

abjuro amores inconsequentes
sonhos permanentes, soluções pertinentes

abjuro, enfim, do azul de todas as fadas
do vermelho destes meus demônios
dos venenos que destilo
e desta estúpida lucidez que me entorpece


ALZHEIMER (Allan Vidigal)

Além das rachaduras da fachada.
Além dos portões,
do ranger das dobradiças,
depois do hall de entrada:
o velho salão.

Que é feito das festas
onde hoje há só teias e traças?
Onde hoje poeira e luz baça,
outrora boleros,
outrora foxtrotes e valsas.
Que é do rodar de vestidos?
Dos tules e tafetás?
Das risadas dos convivas?

Nada resta no velho salão
a não ser a vaga memória
daquilo que foi um dia:
o centro da casa em ruínas.

No meio do assoalho,
uma joia esquecida
brilha de vez em quando
sob a luz das claraboias,
e o salão se lembra e chora.


UM ANJO (Sandra Santos)

um anjo
soletra meus versos
ao pé, duvido


ATERRO SANITÁRIO (Allan Vidigal)

Entre os dejetos e os descartes
(Darwin ou Lavoisier?),
no meio daquilo que ninguém quer
bem no meio, ali,
daquilo que seria um hodierno sambaqui,
o mais banal dos embates.

Cravam as presas pequeninas,
arrastam garras e dentes
nas carnes do oponente
dois ratos e uma criança com fome.

Quem ganhar come.


CERTAS CERTEZAS SÃO SANGUE (Alexandre de Paula)

Seja sempre maldito todo Nome
Santo. Certas certezas são Sangue
O cálice está cheio e há quem tome
Da Mentira que sangra, mata e langue

Sempre seja bendito todo verso
Profano, o engano seja sempre humano
E pertença a ninguém o erro disperso
Não se cubra o universo com vil pano

Sons de sussurros sorvem o silêncio
As lágrimas perdidas são sentidas
E a verdade agoniza no eco pênsil
Nos cordões destruídos dessas vidas.


CHOVE (Cesar Veneziani)

chove
molha
sujeira
trânsito
vidro embaçado
um saco

não me lembra choro ou lágrima
por amor perdido
nem tristeza ou solidão
(o diabo que a tenha carregado!)

é apenas água que cai
molha
sujeira
trânsito
vidro embaçado
um saco


OUTRA CRIATURA (Betty Vidigal)

Era outra criatura, não era?, aquela que se ria nos motéis?
Vestida de um colar de pérolas e anéis.

Esta que agoniza sobre a cama não pode ser a mesma.

Chamavam-na princesa e ria-se, e se ria,
Segura
daquela espécie de nobreza
que a beleza confere
- conferia -, certa
daquele cetro
que nada nem ninguém lhe tiraria.

Exceto o tempo, estúpido carrasco.
Exceto o câncer, verdugo empedernido.

Olha bem, meu filho:
que por ela
homens se destruíram,
mulheres
se desestruturaram e crianças cresceram sem família.
Olha esta pele sem viço, os braços murchos,
e constata como o amor é passageiro.


DIONISÍACA (Cairo de Assis Trindade )

álcool me faz falta
como me faz falta o palco
o afago o aplauso

álcool me deixa alto
um tanto santo - em alfa
um tanto safo - ou fauno

álcool me põe calmo
dá outro feeling
outro timing

(entre éter e éden
provo a vida
palmo a palmo)

beber me deixa leve
álcool me lava a alma


DIVÃ (Lena Ferreira)

Ah...
Não fosse tu e tuas verdades
escarradas no meu verso presunçoso
seguiria, vaidosa, arrotando: sou poeta!
- ego inflado pelos elogios tecidos em seda -


Incomodo estrelas, maldigo luas, amaldiçoo fases
em frases sem sentido, desconexas; queixas
na tentativa de esvaziar o pote que transborda; só
faço da poesia um leito onde teço desabafos; divã

Ah...
Não fosse esse meu vício de dizer verdades
inventaria as mentiras mais convincentes e belas
decorando o verso com a mais perfeita rima e prosa
meu poema, perfume de rosas, não te nausearia tanto...


ENTREMEIOS (Tiago Oliveira de Souza)

Bem no meio da briga
Taco a taco,
Faz o meu oponente
Um gesto feio!

Eu, que não o julgava
Muito fraco,
Olho e digo pra ele:
"Faltou freio?"

Muitas coisas da vida,
Eu não saco.
E compreendo que estou
Só a passeio.

Mas dizer que nos outros
Há um vácuo,
Esse tipo de gesto
Eu odeio!

Para fim de conversa
Eu destaco
Aos que dizem no meio
Ter recheio:

Sempre há
Quem do meio
Tire um naco.

E aos que pensam que estou
De saco cheio,
Digo, então, que vazio
Está meu saco

De gozar
Toda a vida
Nesse meio.


HARDY HAR HAR NO INFERNO (Vlado Lima)

as coisas melhoram
a gente morre
(.)


INUMANA DOR (Reinaldo Luciano)

Lixo-me para a dialética do socialismo gordo e rubicundo,
para o mercado de capitais e capitais pecados
do terço desfiado e sem rosário - espinhos, talvez!

Lixo-me! Lixo-me outra vez para a verdade
e a veleidade inútil democrática...
Antes a socrática saída - porém, nobre!
A sociedade cobre estas feridas...

Lixo-me mesmo para a vida - origem, meio e fim!
Não mais me iludo com o lixo acumulado da fartura,
e sobrevivo avesso à literatura inusitada
montada sob o efeito de palavras escolhidas
e a esmo unidas sob um manto de cultura...

Lixo-me mesmo para a vida e a morte!
Tornei-me estrume imune aos seus avanços
e no ranço sentido eu me misturo
e lixo-me por viver do escuro lado avesso às gentes,
mormente pelo tudo não visto e não sabido...
Não vi e não sei, mas eu me lixo!
Sem lei é o mundo - obscuro;
e eu - bicho homem - me afundo mais neste monturo
de sonhos nus e enfadonhos
disputando o espaço infecto com urubus...

Lixo-me por ser homo erectus
quase quadrúpede - tão curvado - um bípede involuto e involuído.
Neste monte de lixo esquadrinhado
eu luto sem ter vivido
e lixo-me!


O JARDINEIRO (Tiago Oliveira de Souza)

Prepara o campo
Ceifa todas as flores das quais não gosta

Planta uma semente

Regada a sangue e lágrima
Sob a luz fotossintética de sóis missivos
Brota intransitiva e vermelha
A flor do Holocausto


LIVRE INICIATIVA (Nilson Moreno)

Porque eu não escrevo, o poema é sozinho
se sai escrevendo, se escolhe e se inspira
depois se arrepende, então chora, suspira...
eu fico assistindo tomando meu vinho!

Poema carente procura carinho
então se dedica outras odes e liras
quer ser infinito, no eterno se mira
enquanto o observo vaidoso e mesquinho.

Poema arrogante, poeta, um omisso
não viu nada disso, servil, não fez conta
engana que é gosto, perdoa que é vício

distrai-se nas rimas não sobra uma ponta
que seja desculpa, lhe explique o sumiço
(o vate é tranqüilo, poema é que afronta).


MAGISTRAL (Solange Mazzeto)

o fígado padece
apodrece
dissolve

lama nos olhos
figura marcada
silhueta diluída


marcas da exposição
nas unhas do coração

indelével
ela se doava

e paria


MULHER COM MAIS DE TRINTA (Paula Martins)

Agora sou louca desvairada
Com coração de pedra
Até que a fúria de um vendaval
Ou a força de uma enxurrada
Destrua a rocha e deixe
Estilhaços em meu corpo

Meu coração está fechado para balanço
Mas está de portas abertas para
Montanha russa e tobogã em precipícios
Já sou mulher com mais de trinta
Cansada de brincar de meu benzinho
E ursinhos de pelúcia.

Quero rosas vermelhas com espinho
Mesmo que eles encravem em minha pele
E eu os arranque com meus dentes
Encharcando meus olhos de vermelho sangue

Porra! quero viver, deixem-me
Será que posso ao menos
Pisar no solo sujo da vida
sem tapetes vermelhos
Sentindo seus conselhos inúteis na pele
E pelos meus poros derreter verdades?
Não me protejam, quero correr os riscos
Demasiados humanos, qual o problema?

Deixem meu coração sangrar paixões sem fim
Já se foi há tempos a infância de minha alma
E da adolescência de meus desejos e amores
Restam-me indeléveis lembranças
De ridículos príncipes em cavalo branco.

E que me sobre ainda a solidão
de e uma Eurípedes inteira
Escalando o precipício
Com Orpheu na contramão.


O MUSEU DO ABSURDO (Alexandre Brito)

no museu do absurdo
ninguém é surdo
só que ninguém ouve ninguém

no museu do absurdo
ninguém é mudo
só que todo mundo fala junto

no museu do absurdo
ninguém é cego
só que os umbigos batem no teto

no museu do absurdo
tudo é uma loucura
só que ninguém procura cura

no museu do absurdo
a loucura sempre é do outro
nunca é sua


NATUREZA MORTA
(Paulo Gomes)

Tenho fome,
sinto frio,
às vezes medo,
mas ainda assim ranjo os dentes
e vou em frente.

Se você me der carinho,
abrigo e um cobertor quentinho,
vou ficando, amansando,
talvez até dome o animal selvagem
que mora dentro de meu peito.

Mas não, você não o faz,
simplesmente vem,
simplesmente vai,
torno-me ainda mais arredio,
ainda mais vazio,
indiferente,
instintos descrentes.

Outra noite você volta,
eu faminto te devoro,
rasgo suas roupas,
corto sua pele,
bebo de seu gozo,
depois acabo, parto,
deixo uma poesia sem laço.


PALIMPSESTOS (Flá Perez)

Escreve um poema doido
correndo desde as escápulas
até a curva das minhas costas
onde começa a bunda

(a parte que mais gostas).

Mas não dá pra escrever
nada perene
na pele da prexeca;
a tinta nunca seca.


[UMA PITADA DE SARCASMO] (ükma)
Enquanto eu picava pimentão

pensei com meus botões:

...Meu Bem é assim,
atencioso com todas,
feito o sol
que visita
os varais [de roupas íntimas]
do mundo inteiro.


PASQUALE PERGUNTA (Vlado Lima)

1
Pasquale diz
: põe o Poe na prateleira
em meio ao bolor das Barsas
e a cárie dos ácaros
no instante equidistante
entre o Inferno de Dante
o Pó de Fante
e o Coração de Conrad

2
Pasquale pergunta
: servir Cervantes
aos ruminantes
pode?
ipod
mas só se for em drops
ou fast food
pois aos olhos toscos
dos ogros bocomocos
as venturas & desventuras
do Cavaleiro da Triste Figura
(sem figura)
é um antepasto indigesto
troço com tremoço
tijolo com torresmo
aos olhos ogros
dos bocomocos toscos
só mesmo
o poeminha-papinha-de-nenê
com rimas redondas
românticas e
reumáticas

3
e Pasquale pergunta
: no final será o fim?
S-I-M!
os poetas medíocres
reinarão absolutos
nas cavernas
e Chapolim
enfim
será -
além blog
além blague -
incompreensível às massas


QUANDO E NUNCA (Ruy Villani)

Desconcerto
O que havia de ser certo, se esvai
E vai a idéia, que era tanto oportuna
Se vai como a borduna na cabeça
Sem objetivo e nem pressa.

Me aperto
Procuro a imagem diluída
Quem sabe, a resposta às perguntas da vida
E sem a menor importância,
Por maior que seja a ânsia.

Perdi os meus versos compostos no caminho
Mas não perdi o ninho, choquei apenas outros ovos
E se não escrevo versos novos
Não há os que perdi.
Esses não existem mais.

Assim, comportadamente aprendo
O que significa o quando
O que quer dizer o jamais.


RASTROS (Carlos Savasini)

I
Nunca mais uma dose,
loucura pouca é bobagem :
ou ao céu as asas se estendem
ou ao inferno as mãos chafurdam.

II
Nunca mais meias palavras
ou meias verdades
ou meias mentiras :
meio copo vazio pede a sanidade acética
e meio copo cheio pede o porre homérico.

III
Nunca mais o silêncio agonizante
ou a verborragia vazia :
antes o muro que as forças neutraliza,
antes o campo que as forças dispersa.

IV
Nunca mais pouca loucura,
nunca mais pouca sanidade :
negro que é negro é preto e reluz,
branco que é branco é claro e ofusca.

V
Meu lado é o que deixa pegadas.


RANHURAS DE DOR E CHICOTE (Larissa Marques)

ranhuras de dor e chicote
no leito de corte
gado cativo
em abate, sem redenção

ungidos todos
vivos e mortos
na alameda florida
nas costas azuis
de Riviera prostituída
e paridos e deixados
na Avenida São João

adversativa
pedra e pau em mártir de algodão
santo sudário, toalhinhas de puta
em profanário, bacia suja
sangue e porra no chão.


RECIDIVA (Reinaldo Luciano)

Morreu João, velho e sozinho no asilo...
Morreu Maria abandonada na rua...
Morreu Miguel bêbado na estrada...
Morreu Antônio assaltado...
Morreu Pedro na fila do hospital...
Morreu bebê abortado...
Morreu Helena de overdose...
E eu morro entediado
porque meu poema é tão repetitivo
e ninguém o lerá...
Um só verso bastaria!

E seguimos todos, omissos,
dizendo: Isso é comum hoje em dia!
Não temos nada com isso...


RESSURREIÇÃO (Cairo de Assis Trindade)

quanta vezes me atirei
do quinto andar deste tédio,
tomei veneno, sangrei,
abri o gás, me enforquei
ou me matei com um tiro
sem que ninguém ouvisse
nem pressentisse o desatino
por detrás do meu sorriso.

cansei de tentar acabar,
de vez, com a minha vida.
hoje eu já não me mato.
- coisa mais careta! -
tomo um pileque, caio na farra,
mudo de cara, de casa,
troco de caso, de tara
ou simplesmente bato uma punheta.


A RUA MORREU (Carlos Savasini)

Por veias rasgadas
esparsas
insones
a juventude envelhecida
sem facas nos dentes
sem flores nos dentes
sem verbo nos dentes
com papas nas línguas
morreu
nas ruas rasgadas
esparsas
sem vida.


SÃO JOSÉ (Tiago Oliveira de Souza)

São José. Luz opaca. Rua estreita.
Um bafo bêbado mandando porre.
Enquanto o sangue quente ainda escorre
De um jovem que aderiu à nova seita.

Maria dos Prazeres só se deita
Pra saciar o vício que a dessorre.
A pobre por dez paus do pau não corre.
Na lata põe a pedra e se deleita.

A sensação de gozo é tão barata
Que o corpo se despenca sobre a lata,
E só quem está perto sente o baque.

Ao acordar enxerga-se aos pedaços!
Levanta a tropeçar nos próprios passos
Para trocar o corpo por mais crack.


SEM VOLTA (Gisela Rodriguez)

Olha para cá e observe:
Meu corpo dança
Uma dança muda
Que insinua sexo
Com você

Insinua essa tarde
Na aragem que flutua
Rosa púrpura, violenta
Entre teu corpo
E minha vontade

Tua voz já ficou
Instalou um prazer
No meu centro
Aquele delírio de paixão
Decretou meu fim

Um começo ao avesso
Dentro de ti minha boca
E tua sagacidade em mim.


TOQUE (Lúcia Gönczy)

o pensamento me toca
me toco quando te penso
que mesmo frente ao ar
mais denso,
levito entre dedos

o pensamento me toma
e acre, descontento-me;
são tuas, as minhas mãos
imensas, imersas, vazias

o tempo do toque
entre o púbis e o sonho
incansável, frenético, tenso...

o pensamento me toca
prenho-me de estapafúrdios gozos;
deliro teu nome por dentro

posto que, meu segredo [in]visível,
continua calado conflito:-

amor e pensamento
toque e desejo.


DO TRI-CENTENÁRIO DE ZUMBI (Valmir Jordão)

Quilombo, Angola-Janga,
guerreando pra viver em paz,
igualdade direito de todos
salvaguardado pelos Orixás.

N'zambi, Zombi, Zumbi grande chefe
engravidou a Serra da Barriga,
de negritude, coragem, resistência
quilombola guerreiro bom de briga.

Mombaça, Congo, Camarões, Daomé
África oceânica palmarina,
enfrentando o amargo do açúcar
escravidão, tortura, má-sina.

Malungos nas várias Senzalas
Quimbundo, Mandinga, Jeje, Yorubá
em fuga, derrubam paus mandados,
pra ter tempo de jogar o Caxangá.


TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO (Larissa Marques)

qual ficção celeste
essa linha imaginária
transfigura mapas
e ameniza calores

se não fosse o paralelo sul
onde meu equador abranda
seria liberta a febre tropical
que consome certos limites

hei de controlar meus solstícios
e essa desistência opaca
quase uma declinação ao frágil

hei de controlar as dores
e essa permanência estática
esse meridional em mim


TSUNAMI (Betty Vidigal)

a casa debaixo d'água

sombras andam pelos cantos

meninas e frutas na cozinha

na parede
um relógio
onisciente
tiquetaqueia exausto

- e o tempo sempre parado

Mas a água se move e ondula
abre fendas nas paredes
da sala

As camas no mesmo lugar
com suas colchas molhadas
estendidas com cuidado
sob as águas

e ainda há flores nos vasos
entremeadas de algas

e as estantes da sala
escuras, sólidas
sem se abalar suportam
o peso
dos livros mortos

só os cabelos das meninas flutuam
no ritmo azul das águas


URBE SEDUTORA (Ruy Villani)

Há uma paz perdida
Na quase lua cheia
No brilho do crescente
A luz condescendente
Se achega e apeia.

Há uma paz gostosa
No cão que abana o rabo
Dá cabo do cansaço
E elimina o traço
Da urbe chorosa.

Há uma quase triste
Nostalgia quente
Que reinvade a gente
Sem pedir licença
E sem sem cerimônia.

Alegoria Jônia
Coluna descartável
Um capitel inflável
Uma incompreensível
Forma de estetas

E há o rugir urbano
Um quase indecifrável
Barulho ruim e amável
Como são os sons
Dessa cidade infecta.

E há enfim o artista
Que dela leia o belo
E bata o martelo
Sobre nossas mentes
Sempre tão de casa.


VULVA (Adriano Nunes)

Ele diz que vulva é vulgar
No poema. Ele sequer pensa

Que o poema dispensa só
Lixo podre não reciclado,

Poetas sempre triviais,
Preguiçosos, cheios de si,

Pretendendo sempre fazer
Do poema uma vil pocilga.