P:P-P

Palavra-Porrada é um ezine mensal com textos que só têm uma coisa
em comum: teor zero de açúcar.

Os textos-porradas não têm que ser agressivos. Não têm que ser
violentos. Não têm que ser grosseiros (aqui tem até poema de amor,
mas sem rima de "coração" com "paixão").

A participação é livre e recebemos material até o último domingo
do mês anterior a cada edição. As instruções para envio estão na
guia "Dê Porrada!". Claro que não dá pra publicar tudo o que
chega. Mas a gente lê tudo o que recebe e escolhe cerca de 30
de cada vez.


Este XIV Round traz André de Castro, Benê Dito Deíta, Betty Vidigal, Carlos Eduardo Ferreira de Oliveira, Cesar Veneziani, Dani.'. Maiolo, Diogo Mizael, Dom Ramon, Flá Perez, Giovani Iemini, Isadora Krieger, Izacyl Guimarães Ferreira, Jorge Mendes, José Antonio Cavalcanti, Jurema Aprile, Leo Lobos, Ricardo Ruiz, Romério Rômulo Valadares, Solange Mazzeto e Vlado Lima, além dos responsáveis pela bagunça, Lúcia Gönczy e Allan Vidigal.


Fomos assunto do programa Prosa & Verso da Radio Senado. Dá pra
baixar aqui.

12 de set de 2011

P:P-P, XV Round

AFONIA (Jorge Mendes)
não estou falando
de colibris
nem de lírios
nem de abismos
não me fascina
o brilho
de vidro moído
de musas, lluvias e divas
o meu pôquer com a língua
não tem ás nem asas
o que escrevo
não voa
sangra
é mais suicídio
do que poesia
não rimo: desatino.


ALMA LISA (Allan Vidigal)
Explicar a poesia:
Empreitada tão vã, tão fútil,
tão irmã do desespero
quanto olhar no olho uma doze,
encarar sua órbita vazia
pra ver quem pisca primeiro.


BANDINI E A BOAZUDA (Vlado Lima)
1ª PARTE (ALVO & MIRA)
aquilo era um cu
e que cu!
cu de potranca parideira preparada
cu de cachorra de baile
cu de quenga
112 cm de rabo empinado embalado em calça jeans
um Garrincha nos quadris
um tamborim no toc-toc dos tamancos
obelisco bom de beliscar
tronco de baobá
oba! Bandini em mim ulula

a câmera do metrô viu
quando ela saiu do ultimo vagão na estação Anhangabau
UUUUU!
a Sete de Abril se abriu num rio de baba
boys crentes camelôs: aleluia gostosa!
psiu! palmas pra que te quero
qué pipoca ou qué pô pica?

2ª PARTE (PERSEGUIÇÃO & FUGA)
entrou na Telefonica
comprou um cartão de 40 unidades
e ligou pra amiga da Vila Iório
(um cu assim
e Jesus tornaria ao mundo das carnes só pra uma
punhetinha básica)

(...)

desceu a Dom José
virou a direita na Barão
e seguiu até o Teatro Municipal
(um cu assim
e os nerds de Oklahoma City descobririam
a cura do câncer)

(...)

Cruzou o Viaduto do Chá
passou pela Praça Patriarca
e flertou com os manequins da Rua Direita
(um cu assim
e paz na terra aos homens de boa
vontade)

(...)

na Praça da Sé pegou um ônibus
encostou a cabeça na janela
e dormiu até a Cidade Patriarca

(...)

eu seguiria aquele cu até o sertão do Curdistão


BEM ME QUERO (Lúcia Gönczy)
Nada de miquinho amestrado.
Homem, comigo hoje, só no laço;
E nem me venha com esse papo de aranha,
brucutu de meia pataca
Pois se me sinto subjugada, viro louca:-
vou de princesa a rainha do cangaço.
Uma das vantagens do sexo frágil,
é parecer, segundo falsa análise,
aquele que tudo tolera. Já era!
-Não feminista ou cabra macho; feminina, apenas
Sê preciso, rodo a baiana - desço do salto
e muito me encanto por flores de plástico.


BLADE RUNNER, O FILME (Izacyl Guimarães Ferreira)
Em lugar algum do meu corpo
se vê, sequer sob o cabelo
esparso, branco, transparente.
Ou nas secas hidrografias
de minhas palmas, vagos rios
e afluentes que vão perder-se
nos estuários de meus dedos.
Perfurado por aparelhos
que filmam, filtram, avaliam
ossos, fluidos, alguma alma,
meu corpo esconde cifras, códigos
de barra. Não se lê em parte
alguma os números, o prazo
de validade, qual a data
que marcará meu epitáfio.
Mas carrego comigo a chave
da fechadura e do desfecho.
E meu desejo replicante
de uma infinita duração
se desfeito sob o número
de fábrica afinal exposto:
o fio da navalha corre,
vencida a pressa da resposta.
Salvando amor e tempo eu tento
esquecer que não há refúgio,
que não há fuga entre relógios
e o pó fugaz de que sou feito.

BUQUÊS DE ROSAS VERMELHAS (Allan Vidigal)
Olha a mulher que se acha feia.
Em casa, sozinha
numa noite de sexta-feira.

Uma taça de vinho
(é noite de sexta-feira).
No banheiro,
defronte o espelho,
a mulher que se acha feia
fita-se de frente e de lado,
brinda com seu reflexo
e sonha ver-se linda.
E sonha ver-se amada.

A mulher que se acha feia
reclinada na banheira.
Um livro e uma taça de vinho.
E o sonhar em segredo
com toques de dedos
que a conheçam tão bem
quanto ela se conhece.
Um breve tremer de pernas nuas.
Um gemido. Uma lágrima. Duas.
(a mulher que se acha feia, estranhamente,
chora, quando goza, o companheiro inexistente).

Gilette e uma taça de vinho.
A mulher que se acha feia,
com gestos bem calculados,
esculpe com todo o cuidado
os contornos dos pelos do púbis
que ninguém irá tocar.
E imagina ver no fluxo
dos jatos da jacuzzi,
surgindo dos pulsos,
buquês de rosas vermelhas
que ninguém jamais lhe deu.


DITADO DO FEIRANTE (Diogo Mizael)
cada barraca
que chuto
o pau arma
uma cilada


EIS AQUI UMA LISTA DE TERRORES (André de Castro)
Eis aqui uma lista de terrores:
As músicas de amor dos opressores,
A voz de uma abortada atrás da porta,
Eterna enquanto vive a mãe... mas morta.
A rábica mordida de uma guerra
A água vermelha aguando a calma terra
A torpe tirania da alegria
Ainda alimentando a hipocrisia
A fome inexplicável da ignorância
O muro intransponível da arrogância
A técnica mais clean e complicada
Para deixar a carne destroçada
A vida que se vive sem viver
Até a hora triste de morrer...

Mas o maior terror que já senti
Foi ver que todos eles são daqui...


EXORCISMO (Flá Perez)
Dentro dessa cabeça,
demônios índigo blues
pululam e fazem a festa

- Sodoma -

ataram a boa moça
( que um dia fui)

- modorra! -

abriram a fenda
da minha testa.

Possuída,
não os condeno,
nem temo,

pois anjos efêmeros,
roqueiros e suicidas
recém libertos,
também entraram
pela fresta distraída.
E a Legião agora está completa.


HELENA DESTRÓIER (José Antônio Cavalcanti)
A Vênus do telemarketing
sai apressada da sala no sexto
andar
de leveza e vulgaridade
acesa.

Sem medo,
largo a longa fila de emprego,
perco de vista a entrevista
e me atrevo um Páris.

O coração sai em disparada.
A perco de vista
entre a sala 610 e a escada.
O ascensor me escapa.
(Bem que li no horóscopo
que esse dia não daria em nada).

Desafio os deuses e a idade,
recordista de velocidade
mas chego tarde à Ítaca.

Vejo a Vênus de crachá
girar a roleta do adeus.

A Vênus de tênis e fones
some no meio da multidão,
essa maldita invenção de Baudelaire.

Eu, Heitor hilário e exausto,
acabo arrastado por um carro
no centro do estacionamento
Aquiles Park.

Um transeunte afirmou convicto:
o morto parecia drogado.


IDEIA ADVERSA (Giovani Iemini)
reflita:
a ideia adversa
que te irrita
é só o que você não aceita

digo: aceita
verá que a briga aflita
é tolice controversa
se tolerar facilita


MAL DO SÉCULO (Cesar Veneziani)
Tosse.
Tosse.
Toooooooosse...
Escarro amarelo denso
e eu penso:
"Só porque escreve
toscos versos
se atreve
a sonhar tuberculoso?
Pretensioso!
O século é outro,
o charme é outro...
Deste século, o mal
é o sarro virtual.

Cospe o escarro,
tosse e esquece."


MANTRA-ME (Dani.'. Maiolo)
Em meu sono
Viagem de poucos
Desliza-me os dedos
Mantra-me o corpo

Um presente
De Shiva uma Lótus
E Ópio meu aroma
Tantra-me de todo

Canta-me
Atente-me
Cheire-me
Lamba-me
Mantra-me
Tantra-me


A MÃO DE PICASSO, 1 (Romério Rômulo Valadares)
a fala do meu corpo em seu mormaço
se fez medir no pulso reticente
ao me fazer mostrar cada pedaço

quanto eu devo à treva, um penitente
por me saber cavalo e cão, bagaço
da minha mão caída de dormente?

se as estradas trovejam por meus guias
cavalo e cão e boi, estardalhaços
todos os ossos comidos de atrofias

só vão arder mordidos e devassos
num erro extasiado de Picasso
peguei na sua mão tardiamente
o mundo é o rastro final de um estilhaço.


OS ESCOLHIDOS (Betty Vidigal)
Há muito permanecer vivo deixou de ser uma
[necessidade.

Sem motivo de crença ou descrença
- Deixemos estar.
Rompidos todos os elos.
Não recuperamos o perdido tempo.

Embalados na música,
embalados,
que chamado nos leva para o fundo?

Por que permitimos que nossos segundos sejam gastos
[nisto que sabemos irrecuperável,
se para nós era importante
permanecer?
Ou ser.

Do outro lado há.
Eu sei que caminho para o outro lado,
onde todos estaremos mais que sós.
Sós e sem;
é a solidão pior.
Pois estar com é algum modo já de pertencer.

Há um feitiço que nos leva para o fundo,
embalados na música,
embalados.

Nós somos os escolhidos
para assistir ao fim do mundo


MUDO BLUES (Jorge Mendes)
que destino estúpido
o meu
sentir tudo
de todas
as maneiras
e de qualquer jeito

logo eu
que nunca desejei
ser o rei dos macacos
ou herói dos anfíbios

logo eu
que paro na esquina
de óculos escuros
bebendo pinga
com esse azul cortante
doendo calado
dentro do peito

logo eu
que beijo a boca fria
do inimigo
que amo meninas horríveis
que me mastigam
cheias de prazer e horror

logo eu
que desconheço
o profundo infinito
e que vivo
sozinho, inverossímil
no vazio breu
do meu mudo blues.


NEON (Solange Mazzeto)
com a boca impressa
em papel de segunda

e os lábios dissimulados
criados pelo bisturi

a criatura
luzia em neon
a brevidade
e o
ínfimo


NIBELUNGO (Dom Ramon)
O porquê de escrever? Não, nada memorial, conto vinte e poucos anos ainda. São esboços somente, de muitos e muitos motivos;

Teológicas ignorâncias de Deus e as querelas vaidosas e catedráticas dos homens: Erudição, violência, tradição e rebeldia; quatro nomes sagrados. E mais e mais e mais, barulho, caos, ideologias negadas afirmadas não vividas, a sistemática: o marasmo triunfalista dos anos noventa, o delírio tecnológico do novo milênio, niilismo Nirvana em transcendentalismos Post-rock e rock, Funk carioca e forró universitário, É o Tchan!, rock colorido, Lady Gaga, Linkin Park. Al Qaeda na Internet. Aquecimento Global e Harry Potter na mesma notícia de jornal. Minha devoção ao Cyberpunk e à literatura do século XIX. Eu vi o fogo de Bagdá na TV, e as torres caindo. Tomei Coca, comendo Big Mac.

E vi que tudo era bom.

E contra o maior de todos os demônios, no retiro imanado de um quarto fechado; distante dos deuses do agora - Mammom, sua consorte Xiva - pensamentos imediatos, mesclados hidrocodona e nicotina, luz artificial, constipação intestinal e rabugem, ânsia vomitiva e dores musculares. Escrever e fazer letras incompreensíveis, inutilmente, enquanto tudo cai e termina, e piora, e quebra; e com fins de quê? Confins de nada.

Tão assim, nibelungo. Nota dissertativa.
Não, sem mais. Desconsidere.


OBSEDIADA (Flá Perez)
Tenho labirintos sombrios
onde muitos pereceram.

Cadáveres falam comigo,
fantasmas que não morreram.

Pareço domesticada
mas dentro, há florestas
repletas
de animais selvagens,
bailes, festas
porres e sacanagens.

Minha alma sem pena
tem inúmeras portas e janelas.
Vais descobrir
que não conheces todas elas.


A PALAVRA PUTA (Carlos Eduardo Ferreira de Oliveira)
Quando em bocas quaisquer és tão devassa.
Latente por sabê-la popular
O brilho que reluz por toda praça
Da prata que te cobre mais vulgar.

A forma de saber que tu rechaças
Palavra de morrer e de matar
O som cava sentido e louva a graça
Mordaças vão calando o verbo amar.

Descendo junto às trevas monta guarda
Na música presente que resulta
Não sabes quando travas porque tardas

Na virtude que trai que te refuta,
A palavra sem pai vive bastarda
Resguarda na pureza feito puta.


PLANO PARA O ACASO (CASO ACONTEÇA) (Benê Dito Deíta)
Servirei-me de
Fatias fumegantes
E frescas da manhã.

Darei-me à sombra real
Dos contornos do Sol.

Deixarei-me sob árvores
Na arrogância do meio do dia.

E, sem capa,
Ou guarda-chuva,

Saberei-me entre águas sedentas:
Tarde, mulher intempestiva
De verão.


POESIA, 5 (Romério Rômulo Valadares)
há poetas que cozinham
noite e dia
na suave oficina da poesia

eu cozinho a poesia
chifre e rabo
na dura oficina do diabo.


POP-CÓPIA (Jorge Mendes)
tantos kerouacs
de araque
tantas cópias
de bukowski
tantos beatniks
dando chiliques
tantos gênios
irascíveis
tantos leminskis
de esquinas
tantos videomakers
narcisos
tantos avatares
de cadáveres
tantos isso e aquilo
tanto nada
tanto tudo
tanto não ser
que fico mudo
que deixo de lado
que quer saber
já encheu
o saco.


O PRISIONEIRO (Izacyl Guimarães Ferreira)
A Convenção de Genebra
me protege se não morro,
se não corro, se eu me entrego.

A Convenção de Genebra
me defende do perigo
no que digo e silencio.
A Convenção dita as regras

A Convenção de Genebra
alivia minha fome
se falo claro meu nome,
declaro número, posto
e data de nascimento
que confira com meu rosto.
À Convenção nada nego.

A Convenção de Genebra
me garante se eu não fujo
durante esse jogo sujo.
A Convenção me dá trégua.

Mas se outra força me obriga
à sujeição inimiga,
mas se a impostura me abala
e falseia minha fala,
mas se outra dor me devora,
quem me chora?
Que tratado se celebra?
Que lei de paz ou de guerra,
que estatuto sobre a Terra,
se essa Convenção se quebra?


PORRADAS DO TEMPO (Jurema Aprile)
Não há amor maior que ouvir
As canções esquecidas no ralo do tempo
Os versos festejados e depois proibidos
Repudiados, apartados para bem longe das cicatrizes

Não há amor mais verdadeiro,
o que restou daquela loucura
encarnada em paixões
Embalada nas canções. Velhas.

Esse é o amor que ovulou e secou na curva do esquecimento
Sem encomenda.
Quase à queima-roupa.

Ouvir as mesmas canções
Velhas
Atreladas em tanta alegria
Secas de paixão
Depuradas, foscas
Queimadas, zoadas
No apito profundo do trem que não há mais.

Amor maior não há
Do que esse que cantou, levou, passou.
Decantou.

Ficam só duas coisas meio assim, de poesia.

Uma persona de canções
que emerge do ato de ouvi-las
Inesperadamente.

Um quê de sentimento subindo pelo ladrão
como nome de música que
mesmo em pedaços
ainda é canção.


"QUANDO EU MORRER AMANHÃ" (Romério Rômulo Valadares)
(por uma crônica de Luis Nassif)
quando eu morrer amanhã, não interrogue
da só devassidão dos meus ofícios
eu deixo um girassol, como Van Gogh
e um afro-samba eterno de Vinícius

de Caravaggio eu largo essa madona
a recorrer dos rasgos e artifícios
de Scliar, a paisagem da intentona
de Baudelaire, as bendições e os vícios

ainda fica Zé Limeira no cordel
de Cabral deixo um galo e a madrugada
tecida nas texturas de um bordel
onde Bandeira descobriu-se em nada

de Augusto dos Anjos deixo a trilha
das dores retalhadas numa zona
de um soneto. deixo a luz que brilha
num gol fundamental de Maradona

se assim nos entendermos, volto ao jogo
e trago os meus cavalos e o meu guia
numa cidade escaldada em fogo
onde só queima o extrato da poesia.

quando eu morrer amanhã, deixe o meu vôo
que eu, de mim, jamais morro e perdôo.


QUERO (UTOPIC WILT) 93.'. (Dani.'. Maiolo)
Quero um beijo
Forte, apertado
Na bochecha
No lábio, fácil
Quero dedicatória
Sincera
Quimera

Quero um afago
No ego?
Não! Este é cego
Quero infinda carícia
De quem de coração
Dedica
Indica

Caminho de Shiva
Amor puro
Também impuro
E ódio, deixo
Não mais me queixo
Por vezes, extrapolo
Solto o tal verbo
Mas quero que fique
E bem claro

Quero um beijo
De amor mais caro
Um diamante raro
Fraterno ou apaixonado
Espalhando ópio
E pétalas de lótus
Numa embriaguez
Que nada material
Poderia tornar banal

O pranto só sai
Quando a dor adentra
Está, vai ficando lenta
E a deuses minha oferenda


RAPAZ, QUAL É O SEU PROBLEMA? (José Antônio Cavalcanti)
Não há respostas.

Meu amor é um míssil.

Secreta ogiva segreda

inaudíveis palavras de amor.

Infelizmente

você não aciona o controle remoto.

Disparo meu último foguete.

Aciono o pavio,

porém você não detona.

Então, amor, afundo

e não volto à tona.


REM (RAPID EYE MOVEMENT) (Leo Lobos)
Tradução: Geruza Zelnys de Almeida

PAISAGEM - MIRAGEM
Ao escritor britânico
Artur C. Clarke
in memoriam

As ovelhas que pastam distante são chacais
um trem
estremece a cidade
e os anjos do cemitério choram pó
As palavras são portas que abrem e fecham suas asas
as palavras são múltiplas e contraditórias
e possuem o ritmo do trote de um cavalo na campina
Um dia vem depois de outro dia
e para mim
um dia nunca é um dia qualquer
são estas as responsabilidades do ser
em uma paisagem deserta de humanidade

SONHO TENAZ
Ao escritor chileno
Roberto Bolaño
in memoriam
Um diário descontínuo
que abre e fecha
com uma orquestra que acompanha
poesia
vertiginosa e sincopada
comovedor
romântico
Rimbaud em fuga perpétua
E já sabes como és
Cesaréa disse uma vez
para além do ano 2600
queimando as mãos e os pés
por cada poema
exalado
O que há por detrás?

PARALISIA DO SONHO
"Pequeñas motas de luz etéreas
burbujas diminutas pecas en
la lente externa del ojo"
Ray Bradbury
Nunca sinto que sou eu quem faz arte
Não sei de onde vêm minhas idéias
Eu só apareço para o trabalho
E sigo minhas ordens

RAPID EYE MOVEMENT
"No importa cómo se ponga la pintura,
mientras que algo sea dicho"
Jackson Pollock
Viveram lendo
Escrevendo
Rezando
Muito além do monólogo interior
Muito além da morte

TEMOR
"La mejor parte es sentirse vivo pintando
y la peor es necesitar hacer pinturas
para sentirse vivo"
Geoffrey Lawrence
Reverência emocionada
quando tudo
deixa
de
importar
quando tudo está escuro
quando tudo está perdido
Que a musa te toque com seus
dedos as costas
e te empurre ao caminho
Que a frieza das cidades
que a rosa do nada
que a lama imóvel
que a areia movediça do deserto
não apaguem a tristeza da tinta
que há de alcançar a água
E seja ar movido por lábios
uma
vez
mais


SERÁNUS (Isadora Krieger)
mas era uma arcádia tão fechada
mas tão fechada que de tão fechada
consentiram apenas dois membros,
membro Medeiros e Albuquerque membro,
e o ritual dos dois era tão exclusivo
mas tão exclusivo que de tão exclusivo
membro Medeiros e Albuquerque membro
não acreditaram quando um vira-lata
adentrou o recinto, mas o vira-lata era
tão molambento mas tão molambento que
de tão molambento no ritual logo se fez
presente, para o desespero do membro
Medeiros e Albuquerque membro que não mais
puderam tampar os olhos com seus emblemas,
oh! oh! mas existe um vira-lata entre nós Medeiros!
oh! oh! e salve-se quem puder Albuquerque!
oh! oh! mas o vira-lata levantou a pata Medeiros!
oh! oh! e o vira-lata vai mijar Albuquerque!
oh! oh! mas o vira-lata mijou no absinto Medeiros!
oh! oh! e o vira-lata nos deu as costas Albuquerque!
...........já lá fora a Maria que desconhecia a palavra
metáfora aconchegou o vira-lata no colo e lhe perguntou:
- fio, que risada larga é essa no teu beiço,
por Acaso robasse do céu a lua crescente?


SIBILA (Ricardo Ruiz)
Sonho subverter com suavidade
A solenidade da sua saia.
Saçaricar sob a superfície
A sinuosa silhueta soberana.

Sussurrar um soneto em segredo,
Sopro sonoro, sideral.
Sentir suar, suculenta, a sarracena
Cedendo, o sumo da seiva ao centauro.

A sensualidade cerca o cenário
Um sabor de sândalo circula
A saliva semeia, sorvendo o solo.

A Ceia Celestial é sagrada.
Ceres celebra a cerimônia.
Samsara, na sequência, sorri.


TAKES (Diogo Mizael)
cena1
namorada parada na parada de taipas

cena2
30 minutos depois

cena3
o namorado chega com um buquê de rosas flácidas
nas mãos

cena4
tapa

cena5
abafa

cena6
pisoteada

cena7
a rosa é uma rosa é uma rosa


VAZIO (Benê Dito Deíta)
Que corra
Um rio
A alargar
O leito
Onde repouso.

Desencrespe
Meus veios
Secos.

E que
Encontre
A calmaria
De um lago.


VOU ESCAVAR (Benê Dito Deíta)
Sujar unhas
Da terra de meus
Sítios: arqueologia
De sobras reais,

Soprar a terra:
Adorno pueril
De entranhas que
Sangram ainda,

Cheirar fétidos
Rios profundos
Correndo amarelos:
Resíduos pulsantes,

Desbastar as crostas
De disfarces cozidos
E restar-me crueza
Aos seus olhos nus.

O que lhe sobrará
Do nosso amor?

Desbastar pós
Que desenham
Linhas barrocas
Sobre a busca.

21 de jul de 2011

P:P-P, XIV Round

ACIDENTE NA AVENIDA (André de Castro)
O último relincho na carroça,
O carro atravessado na avenida
E o ciclista estirado, sem que eu possa
Cobrir seu corpo inerte e já sem vida.

Não mais irá o cavalo para a roça;
A motorista, em pânico e perdida,
Revê, talvez, seu carro, que destroça
O ciclista e a carroça envelhecida.

O cavalo e o ciclista vitimados.
Mas muitos motoristas, apressados,
Só vêem que a avenida está trancada,

Alheios à mulher, que sai do carro,
Se entrega à dor, às lágrimas e ao barro
E, em choque, diz aos mortos: não foi nada...


AQUÁRIO DE SERPENTES (Lena Ferreira)
Andei desconstruindo celas
abrindo portas onde não tinha parede
destecendo redes de entranhas
desmembrando peles de intrigas
descascando as dores das feridas

Andei ralando a alma em precipícios
que desde o início seduziam-me ao salto
auto-mato, morre a fome de um grito
seco e cego; não atino o volume certo

Andei atirando a esmo, atingindo galhos
grasnando em escolhas recolhidas pelo espaço
passando fome, comendo o pão que o diabo vomitou
não me rendi, não me entreguei, não me dosei

nunca mais me dosarei a quem não dosar de si
não em troca mas em troco; lucro farto e perto

Andei abrindo janelas em aquário de serpentes...


ARCANO 16 (Rosa Cardoso)
o vento brinca com a árvore na janela
e tua voz vem riscar a vidraça

é tão tarde

quando sussurras teus versos
em rimas surreais
que deslizam pelos meus sonhos
junto com umas lágrimas descabidas

é tão tarde

para riscar peles e vidraças
até os mortos sussurram
longas árias
em cadencias insanas
enquanto você chora
em rimas perfeitas
murmura histórias arcanas

versos
música
hosanas e teu corpo

é tão tarde

eu sussurro
os mortos mentem
em línguas mortas
enquanto a tua desliza
no céu da boca
segredos estelares
bobagens seculares

mentiras de vento e folha
que eu finjo não ver
nesse gozo esquecido
perdido entre as frinchas da noite
eu entendo
tudo, ou quase tudo,
de tudo que nunca entendi

meus olhos ardem
e te esquecem um pouco mais
fecho o livro sem pressa
guardo o poema junto aos meus
que dormem sozinhos

teus mortos sussurram
é tão tarde


AUTO CONDESCENDÊNCIAS (Izabel Lisboa)
ir além do cênico e
de bom grado
em meio à morte diuturna
beber a vida
como água[ardente]
como puta condescendente
embriagada
louca e indecente
abundando-se em riscos e risos
subvertendo-se
em delírios poéticos
bendizendo o sim...
[consequências do eu exilado
quando se aprende
que a morte é frígida]


AVESSO (Solange Mazzeto)
é a lambida do inferno

com suas

taras

e

decretos


com os dentes da frente

emparelhados

fazendo silvo

fazendo arte

fazendo birra


é a manipulação da gengiva

do grelo

na saliva


é o demônio esparramado

servindo vinho

bebendo pinga


CONFESSO... (Izabel Lisboa)
por aqui
o cio de sempre
cíclico
torrencial
incomensurável
tenso
teso
fatal...


O DEUS DA GUERRA (Betty Vidigal)
O deus da guerra sabe.

Sabe e se esquiva,
não como um deus guerreiro,
mas como uma pantera em carne viva.

O deus da guerra ouviu meus pesadelos
E sorriu, com a tolerância dos guerreiros
Que riem dessas coisas primitivas.

Desvencilhando-se da sede que exacerba,
Hábil na lança e no escudo,
Há de saber que na trégua cicatrizo,
Resisto,
Cresço

E não mudo.


DUZENTOS POR HORA (Solange Mazzeto)
câmbio em alta tecnologia
sistema de ponta

cruza a ponte controvérsia
da história da máquina

flecha, monte de Vênus
sexo na velocidade máxima

marcha a ré
espera
solta a primeira marcha

desce devagar
...
respira...
solta o freio
vai


ELE VEM (Solange Mazzeto)
é trapaça
o sono é vento
a tempestade é granito

em gole ele vem
na temperatura ideal
marcar
território

estampando na cara
o gosto maldito
do amanhã

horas batem, sinos rompem
no retrato a mancha
de suor escorre

lento exagero

flor perpétua
solamente

roxa


ESTILHAÇO (Dudu Oliveira)
Sou um e sou tantos
E dentre tantos
Em que me desmembro
Refletindo por todo canto
Sou cada caco
Do tanto que tento.

Sou um e sou tantos
Das faces que ofereço
Medida do que pareço
Sou desencontro,
Sou desconcerto
E meu lugar é o espanto.

Sou um e sou tantos
Versões postas ao avesso,
Um nome vagando a esmo,
O eco partido do pranto;
Sou tantos, e sendo um,
Eu sou o mesmo.


FÊNIX (Cesar Veneziani)
o verso me engole
flutuo no suco gástrico
me desfaço, decomponho
algo nutro
xxxalgo resto
e excreto
renasço poeta


INVOLUNTÁRIA (Diogo Mizael)
parto
do pesadelo

de consciência
limpa

uma boca
de quatro línguas

no quarto
do crusp

espera alguém
que não tenha
passado


LEX TALIONIS (Hamon Vaz)
Eras infinitas de amor
Existem porque você existe

Não é pedido para ser de joelhos fortes ou franzinos
Nem curvada se apresente

Ainda assim quero ver seu cabelo esvoaçar
E fincar meus olhos nos seus olhos, meus dentes nos seus dentes


LIXO TÓXICO (Flá Perez)
Sangro mais que pelos pulsos,
olhos, boca.
Sangro ideias obscuras.

Desato o torniquete
- não houve tempo pra sutura -

do corte escorrem algoritmos,
radioatividade, manias,

palavras desconexas,
puzzles, poesias.

Cheia de ódio,
ainda assim gozo

e atônita,
olho o papel,
as linhas.

E amasso vestígios,
varro-te,
atômica ventania!


MINHAS MULHERES MALUCAS (Vlado Lima)
Para Charlie Harper
não morro só
no caritó
à míngua
minha língua-ímã
sabe o X do mapa das mina
é só engatilhar meu olhar 171
e PUM! PUM! PUM!
tá armada a cilada
é só correr pro amasso
(um abraço)
e faturar a cantada
minha lábia-ímã
sabe a rima
sabe o clima
e a sina
(triste sina)
de só atrair
mulheres sentimentalmente
prejudicadas

Vanessa
conheci no carnaval
tomava Gardenal
e dizia que tinha pobrema de cabeça

Eulina
menina pra sarro
louca por carros
cheirava a gasolina

Malu
crente do rabo quente
miguelava a frente
mas liberava o cu

Leonor
Vagaba masô
curtia uma porrada
adorava sentir dor

lembro-me de uma
a mais maluca de todas
tipo comum
média estatura
nem gorda
nem magrela
disse-me um dia
assim
na cara dura
sem anestesia
EU TE AMO!
(...)
chapei
pirei
dancei

casei com ela


MORRI AMANDO (Pedro B.)
Morri amando
Morri amando
Morri a mando
de seu marido


MULTIDÃO (Dudu Oliveira)
Agora sou ninguém em muitas faces
Disfarce de silêncio em seco canto
O tanto que do todo se reparte,
E a parte que faz crer em tal espanto.

Adianto que esta paz precisa é nula
Regula feito escárnio com lirismo
Abismo de volutas, linhas turvas,
A curva da espiral que molda o mito.

Um grito toma o céu indiferente
Latente vê brotar à dor que mata
Que salta pela falta que ressente

Carente deste gozo que maltrata
Retrata de revés, mesmo que ausente
A mente quer viver a dor exata.


NÃO (Vicência Jaguaribe)
Não.
Que o meu silêncio ao teu silêncio
Não fale de conformação.
Não te passe a impressão da aquiescência
Nem te sopre da complacência a ilusão.
Não te iludas.
Nada mudou na essência,
Ainda que na aparência paire a quietude.
O lago, que na tranquilidade azul
Promete calma, e passividade acalenta,
É um abismo que funde nas entranhas
A estranha alquimia da dor e da saudade.
E a qualquer momento lançará,
Em jatos escaldantes,
O que foi fundido
No furioso calor do estraçalhamento.


NOVENÁRIO TORTO (Rosa Cardoso)
faz tanto tempo, meu pequeno
leio tuas entrelinhas gritadas
e me escondo nos entremeios

protegida pelos símbolos
escorrego na tua língua
uma imagem quieta e perdida
nessa retina cansada

há tantas nuvens, meu menino
e a chuva caindo
sobre teu sorriso de quem desentende
e se surpreende
com esses barcos desencontrados

a poesia,essa menina danada
trepada num galho
recita versos que caem no meu colo

enquanto durmo

recito teu novenário
feito de sorrisos distraídos e avaros
sonhos de praia perdida

teus olhos sussurram
deslizam céu e mar
eu presto atenção

mão no queixo

soletrando pelo dia
tuas palavras avessas
construo barquinhos de papel
de versos esquecidos
que guardo bem na curva
perto da aurora
...aquela que não te dei


PAIXÃO (Cairo Trindade)
a morte do amor:
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxum buraco
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxum sufoco

toda morte é corte:
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxtira um naco
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxabre um oco

a morte do amor
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxdeixa o eco
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxde um soco


O POETA E O POEMA (Willian Delarte)
O suco de um coração moído não embeberá a poesia
A razão de sóis diluídos não a clareará
O Poeta morrerá sem que o Poema:

expurgue uma só emoção
arranhe qualquer questão
coce dois ou três dilemas

(nenhum verso poderá salvar a alma do poeta...)

Imprestável, descartável,
o Poema é adereço inútil em sua sombra,
uma droga antianalgésica que lhe consome
como um jeito doce do amargo saborear

(e não o salvará...)

O que nasce da vontade de libertação
é opacidade na representação do dia -

do ritmo,
do belo,
da própria alma da poesia

(e nunca o salvará...)

O Poema é um espectro fosforescente numa noite escura
O Poeta de binóculos só enxerga o que não vê
Na varanda onde o Poema dorme sem textura
um dedo o tateia em braile, mas não lê

(e jamais o salvará...)

Surgirá como uma azia sutil,
qual célula gorda e cabeluda
no pé da garganta, que abriu
uma fenda entre o cérebro e a bunda

e não
nunca
jamais o salvará,

ainda que o Mundo possa revelar
no espontâneo assombro que o eleva,
tal como um ponto de luz pode tornar
evidente o poço sem fim das trevas


PRIMAVERA ÁRABE (José Henrique Calazans)
Nosso berço balança
nas ondas da Revolução.
Que as areias devorem
os cadáveres dos mercenários
e as preces sejam armas
na luta contra os tiranos.
Que as fronteiras se dissolvam
numa afronta aos hipócritas
e as pirâmides testemunhem
o nascer de uma Era.
Que o grito dos mártires ecoe
por Rabat, Trípoli, Mascate.
E o siroco receba um nome novo:
Liberdade.


RISCADOS E DESENHADOS (FlaV Cast)
Por que querer
Parece geométrico
Como se fosse reto
Um caminho direto

Pois estamos presentes
De linear os esquadros
Das nossas conjunturas
E algumas testemunhas

Paralelismos em opostos
Foram duas retas corridas
Abertas em compasso, riscos
Entre nós tantas tangentes

As quadraturas das tuas curvas
O risco eminente de você de luvas
Quase tão suave quanto sua calma
Eu finjo não ter pressa, mas me abraça

Porque entre os números, a sorte
Dentre os mantras, nossos suspiros
Entre o dia e noite, nós, nem sempre a sós
E entre o antes e o depois, colocamos risos

Porque onde estivermos o sol aparece
A lua bem vinda sem hipocrisia, magia
Saturno às vezes me faz bicudo, pontuo
Porem libra meio destrambelhada, equilibra

Porque ainda temos muitas páginas em branco
Levo lápis de cor e caixas de tintas, tira fotografia?
Confesso, rabisco letrinhas miúdas em noites de lua
Mas matreiro, entre o vinho e o poema te deixo nua.


SANTUÁRIO (Allan Vidigal)
Quando talvez não me encontre,
não me procure
no escuro onde me escondo:
aqui vivem monstros.
Aqui, apenas vento frio,
as águas paradas
e nós, os monstros.


SEGUINDO (Salma)
No trânsito
Olho através do vidro sujo e riscado do ônibus

A miopia me atrapalha.

A frequência da rádio falha
E a música se desfaz num chiado


SEM MOLDURA (Izabel Lisboa)
um raio de sol escarlate
feriu a boca da noite
o mundo cão farejou o assombro
o corpo
do outro lado da rua
o corpo
o grito
o sangue vivo
no paletó branco de cambraia de linho
um único golpe
uma lâmina afiada
o asfalto vermelho
no ar
um cheiro agradável de pão quentinho
espalhava-se com a aurora


NEM TODO RITMO... (Lúcia Gönczy)
nem todo ritmo é luz
nem toda onda nada
o etéreo nem sempre vaga
a pista nem sempre ata
o beijo nem sempre é língua
a transa nem sempre é gozo
fugaz não quer dizer nada
o corpo nem sempre é osso;
sonoro também é ausência
de nada que nada vale
presente não é passado
senhor das horas, do tempo
nem toda ferida sangra
nem todo ungüento sara
aurora quase boreal espalha
vento fumaça fuligem
no ser que tudo abraça
nem todo abraço afaga
traço meu traço vago
à lápis à vida
cansaço
no punho,
aço.


SONETO IMPERFEITO (Daniel Leduki)
Soneto imperfeito
Gravetos pontiagudos
Perfeitos, espetados
No peito do próprio conceito

Fazendo do corpo
Saleiro de sangue
E na carne que dorme
O cerne que se consome

Mas e a meta do mote?
A métrica é o norte!
Enlace com corda puída

Sapatos versados de lama
Perdem-se na ponte caída
Enquanto se esvai a alma...


TODAS AS FICHAS (Diogo Mizael)
desligou
o telefone
após transar
com um desconhecido

a mim
agora,
só cabe dizer

que sou
o filho da puta

que telefonou
no dia seguinte,

os melhores
quadros foram
os que Modigliani
destruiu


III O ULTIMATO DOLOSO-MUDO (Nina Martins)
hoje não uso cinza
nem que seja só até melhorar do estômago
ou até os jambos logo pularem das árvores
sempre que começam as chuvas
quem mofam os sapatos
e fazem poesia nas redes sociais

agora não acho graça da minha desgraça alheia
que nem a eficiência do meu esquecimento
faz mais
enquanto não saio de casa
não me abriga a sola
ou os problemas da ansiedade
que fazem teorias depois do almoço
não ciscam no chão como galinhas e pombos
mas escavam rápido como vermes vampiros


VOCAÇÃO (Allan Vidigal)
Passar pela vida como o enorme
cavalo baio da morte,
esmagando o mundo com os cascos.
Não que nem barata tonta,
que causa asco, se tanto,
jamais real dano;
algo mais como um elefante aflito,
paquiderme acometido de brutal labirintite.