P:P-P

Palavra-Porrada é um ezine mensal com textos que só têm uma coisa
em comum: teor zero de açúcar.

Os textos-porradas não têm que ser agressivos. Não têm que ser
violentos. Não têm que ser grosseiros (aqui tem até poema de amor,
mas sem rima de "coração" com "paixão").

A participação é livre e recebemos material até o último domingo
do mês anterior a cada edição. As instruções para envio estão na
guia "Dê Porrada!". Claro que não dá pra publicar tudo o que
chega. Mas a gente lê tudo o que recebe e escolhe cerca de 30
de cada vez.


Este XIV Round traz André de Castro, Benê Dito Deíta, Betty Vidigal, Carlos Eduardo Ferreira de Oliveira, Cesar Veneziani, Dani.'. Maiolo, Diogo Mizael, Dom Ramon, Flá Perez, Giovani Iemini, Isadora Krieger, Izacyl Guimarães Ferreira, Jorge Mendes, José Antonio Cavalcanti, Jurema Aprile, Leo Lobos, Ricardo Ruiz, Romério Rômulo Valadares, Solange Mazzeto e Vlado Lima, além dos responsáveis pela bagunça, Lúcia Gönczy e Allan Vidigal.


Fomos assunto do programa Prosa & Verso da Radio Senado. Dá pra
baixar aqui.

17 de mai de 2011

P:P-P, XIII Round

AROMA (Lena Casas Novas)

Evapora de ti
a essência da perdição.

O teu âmbar cinzento
mandei para destilação,

para fixar em mim
teu corpo fugitivo.

E te fazer provar
o verdadeiro absinto

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ARQUIVO MORTO (Flá Perez)

Afogo em copos
o instinto inócuo
de rasgar diários,
degolar as fotos.

E um dia quando
não me doerem mais
me servirão de capa,
nota de rodapé,
(nem sei!)

atestado do ódio
que deixei pra trás,
bilhete suicída
que nunca farei...

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BIPOLAR (marden)

o couro que me cobre a carne não tem planos
faz anos vive a insensatez da espera
traz nos sonhos uma confusão que arde
e abriga dentro a infernal quimera

subentende-se num desequilíbrio avesso
mãos e pés por entre dúvidas grave
cativo a tempos como um deus reteso
da liberdade regurgita o entrave

caos e coisa ou representatividade
e daí? se o cu do mundo é o mesmo
e me bateram isso em tenra idade

a saída só encontro aqui, surpreso
dentro da metodológica verdade (?)
filosofia agora é o 'veropeso'

e mais um verso vem fazer alarde!

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CALOS CONTRA AQUELES (Marco Aqueiva)

Contrafeitos, meus calos obedecem à linguagem do dia a dia
obedecem à razão imperativa que me impõe firmes
e turvas trajetórias
asseguram o avanço contra a parede do corpo

O calcanhar sem a sombra da dúvida surpreende a rosa
(soldado cego - ao pé da ilusão não sangra)

A rosa espedaçada morde um e outro calcanhar
outras rosas multiplicadas, o céu impoluto
(sem passado, breves tripudiados e ignorados encantos)

O prazer entre os dedos, as mesmas que não outras insuspeitas
ardendo enquanto eu pisando gritos repisando versos
30 dinheiros pelo verso desconsolado
30 dinheiros - gritam-me escandalizados
30 dinheiros e tudo teria sido em vão pisado

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CENSURADO. (Dudu Oliveira)

O poema perdido jaz sem graça
Mordaças vão ditando turvo rumo
Um prumo mede a curva da desgraça
A praça tem no dono seu resumo.

O poeta sem voz é só carcaça
Disfarça sua farsa em sombra e fumo
O insumo do silencio é como traça
Ameaça a sedução do Demiurgo.

A folha não é feudo: não tem tranca,
Pois espanca com verso, como gesto,
Protesto sobre o resto em rima franca.

Nestes versos perversos que cometo
No gueto da palavra, nas masmorras:
Gomorra! Nesta porra de soneto!

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CERTAS NOITES (...) (Lúcia Göngzy)

certas noites, como esta, deveríamos andar de costas.
como antigamente, cultuar infâncias, desamarrar cadarços;
certas noites, exatamente como esta: - escura, duvidosa
deveríamos despir medos; sentimentos embolorados,
pudores retrógrados
a teia tece aranhas tão vivas como os insetos
devorados

ardil, armei meu ventre de espinhos e girassóis
agora é hora de agora. não mais reviver velhos contos;
cavalguei alados à procura do princípe encantado...
caí. na real, caí

[...]

hoje só beijo sapo.

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cri-cris (Líria Porto)

coisas pequeninas
que nem incomodam
numa circunstância
para os picuinhas
são muito maiores
que as relevantes

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CULTO (Allan Vidigal)

Adora-me, genuflexa,
sê hetaera e ninfa,
venera em mim Príapo e Pã.
Recebe entre as mãos
o ícone e signo da tua devoção.
Acolhe sobre a língua
o sacramento, a eucaristia
que te dá teu deus pagão.

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DERIVA DOS CONTINENTES (Igor Buys)

Uma loura lactante,
mãe há poucos meses,
biquíni de onça,
perdida
em si mesma
e a procura de Deus;
uma mulata,
vestida de prata
balé e samba;
um homem vestido
de silêncios.

Uma cena por demais
pitoresca
para ser pintada,
exceto por Lautrec
mas numa tela cubista
e carioca;
um beijo
de três bocas,
uma boca de quimera,
de pantera negra e aur-
ora pintada,
com a cidade roxa
e amarela
ao fundo, diluindo-se
na sarjeta incendiada
de infernos que piscam
em fornos vermelhos,
azuis e verdes de além.

Duas, nada menos que
duas, nuas
como rios que se encontr-
am negrossolimônicos
transbrasileiros
e dasaguam em barro-
-carne e lua, para ao barro
não retornarem jamais
exceto como grito
exceto como cimitarra
contra o peito do tempo
que todos querem morto-
-e-ressurreto:

dionisiano
para não perder do ag-
ora o seu sempre,
a sua alma e-
terna e ensaguentada.

E enfim, a quase impossível,
a quase não vista
ternura e suas pétalas róseas,
seus pés delicados,
floresce entre os náufragos,
os que se sabem à deriva
na deriva dos continentes,
com seus risos frouxos,
com seus dedos enlaçados,
numa terça sem termo,
num quarto sem quartos,
num Rio sem rumo,
que volve a oceano.

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(des)merecimento (Líria Porto)

à mulher que se disputa
o céu a terra a florada

à mulher que se diz puta
nada?

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DOLOSO (Larissa Marques)

sei dessa angústia
tardia que habita
meus espelhos
matinais

e dessas paisagens
disformes retratadas
em papel de embrulho
descartadas à revelia

por ceder ao alheio
esmoreço em dolos
quantas faces
de Frida encontrarei
em vias expressas
e passeios públicos?

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ERRONA (Salma)

Erros.
Malditos erros.
Necessários
Necessários ou não
Malditos.

Grandes enormes bocudos
Altos gritantes

Vontade de soltá-los num arroto

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FOUCAULT FREUD E FRALDAS DESCARTÁVEIS (Vlado Lima)
para Viniboy, para Pedro e para Lucas

dialético diletante
não queria ser pai
crianças são diuréticas
mijam demais
cagam demais
choram demais
mas nasceu meu filho
uma bolinha de carne com 3 quilos e 800 gramas
aprendi cambalhotas
piruetas
caretas
e outras macaquices
virei um encantador de mamulengos
um cartoon de carne
um domador de dinossauros
um funâmbulo sonâmbulo
que em noites de cólica versus chá de camomila
toca pandeiros de pelica
numa banda de pandas de pelúcia

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guilhotina (líria porto)

rareou os beijos
arredou o corpo

e pé ante pé
sem dizer paulada

foice

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ÍCARO NO LABIRINTO (Jorge Mendes)

então você quis provar o absinto
das noites verdes do néon
e se embriagar de lírios e pássaros
até tocar com a língua
o infinito brilho das estrelas?

você quis cair do alto
sem se ferir durante o vôo?
e desejou a flor do ópio
atravessando as longas avenidas da madrugada
como um vento quente nas cortinas?

você quis sorver o sangue espesso do tempo
para poder sentir no fundo dos olhos,
no labirinto das veias, a fúria das esquinas?
tentou sonhar com máquinas magníficas
que não triturassem seus miolos?

você quis provar o espesso vinho tinto aéreo
da mulher-sereia?
quis aparecer nos espelhos
dos olhos de água-viva da medusa?
teve calafrios debaixo dos lençóis?
mergulhou na tempestade
com a palavra de fogo tatuada na testa?

então você quis cantar a canção
do anjo negro e dissolver na dura claridade?
quis ouvir a melodia dos abismos?
provar o doce canibalismo das borboletas?
você quis voar rumo ao sol com asas de cera
e, no entanto, tudo que sobrou
foi essa monalisa sarcástica
com seu sorriso de escárnio
no inevitável dia seguinte.

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MÁCULA (Cesar Veneziani)

Macular o branco do papel
não é papel
apenas
às penas do mau poeta.
Na certa
o rastro da má rima
se assina após o "blof"
do mergulho da estrofe
na latrina
e se imortaliza,
transgênico,
na biblioteca de papel higiênico.

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MALDITO DR. RAY (Vlado Lima)

um click e o mundo caiu
a miss virou mousse
o que era pinheiro real virou gelatina Royal
e o S do Senna, uma reta dos boxes
maldito Shapewear Firm Control!
Maldito Dr. Ray

e a bunda?
que bunda era aquela?
só osso no vácuo
pele no vácuo
um cu no vácuo
se eu fosse um tatuador
apagaria o garrancho tribal desenhado no cóccix
e escreveria: não contem glúteos

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OSSOS (Débora Lopes)

passa voando

a cores
expresso
rápido
pelo metrô

surge
na xícara
na bituca
no arroz
do almoço
que sobrou
pra janta

fica
assim
ínfimo
pros burros
opulente
pros simples

o bate-estaca
no verso livre
o irreal
exposto
à pele

fica
prostrado
na língua
no dia seguinte
o gosto
do teu pau
entremeando
meus lábios

fica
enroscado
preso
fica
tatuado
irremovível
fica
ficando
fica
rimando
no peito
batendo
coçando

fica
na cama
na minha
teu pêlo
o lençol

fico
feliz
transpiro
exalo
e fico
bemol

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A PAIXÃO DE SENGHOR (Betty Vidigal)

Senghor não gostava de Donata.
Senghor gostava da bunda de Donata.

Donata é séria, frugal.
A bunda, alegre e farta,
é para cem talheres, mesa lauta.

Donata é o oposto de si mesma,
o lado B da própria bunda,
do porto onde amarravam-se os desejos
de Senghor.

Se a bunda apenas,
a bunda tão somente
tivesse vida própria,
Senghor se casaria, de cartola,
de fraque e o coração
desembestado a disparar rojões.

Se a bunda dela, a bunda maleável,
tivesse um som, seria o som de um sino,
a música dos anjos: a do Cosmos
a tilintar a cada passo, guizo insano.

Senghor insone sonha sem dormir
com o dia em que ela virá, em vez de ir.

Pois só a ir-se é que a vê.

Nunca de ré Donata se aproxima
em direção a ele
- só se afasta,
e é em afastar-se que revela
o que Senghor jamais terá. Donata é bela,
se vista assim, por trás.

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PAUSA PRIMEIRA (ükma)

Delícias sombrias
escavadas na ganga
do meu passado:

viver com você
era relaxar o pescoço na guilhotina,
ficar de tocaia perturbada
e admirar a ruína
dos ossos e dos tecidos,

melodrama deteriorado
em recortes míseros.

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PERDOA-ME POR ME TRAÍRES (Igor Buys)

Ah qual guerreiro que do peito desenterra
Espada crua, e já retorna à luz da guerra,
Erguendo alto o rubro archote expectorado,
Eu do imo peito arranco o teu nome de um brado,
- este gládio de berro em que o sofrer pôs serra,
E com ele estraçalho o silêncio que encerra,
Em seu negro cristal, refrações do falado,
Onde um leito de amor foi por ti profanado.

(Ouço um palhaço só soluçando de um palco
Distante além da Aurora, além do oceano glauco...)

De certo eu fui culpado, por não ter te dado
A atenção que querias, quando, apaixonado,
Me deixei afogar nos lagos de tuas íris,
Surdo de amor - perdoa-me por me traíres!...

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POEMA PORRADA (Marco Aqueiva)

Os olhos antes da chegada do corpo
armam-se meticulosos e laterais
chegam de passagem fortemente
insatisfeitos

A sucata do corpo entre rugas e cosméticos
alonga-se aos olhos seviciados pelas pequenas
unhas comprimidas contra a própria mão fechada

O rosto vazio em cada gesto desses olhos
o tremor que desliza pelo corpo
breve tremor injetando-se em torno das unhas

E no meio da rua a mão
cirúrgica contra o real obrigatório e azul
esmurra o corpo que cruza sua trajetória
só de passagem

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POEMETO ESQUÁLIDO (Celso Mendes)

linhas do horizonte
sucessivas e inúteis
desabam a todo instante
enquanto permaneço obtuso
rasgando a beleza da tarde
com este meu olhar estático
irredutivelmente espástico
indubitavelmente esquálido
borrado de sonhos vencidos
riscado de palavras rubras
e pele manchada de tempo
a ouvir a conversa das pedras.

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SERVIL (Allan Vidigal)

Se quiser, conte comigo
para nunca estar sozinha.
Deixe aos meus cuidados
a faxina e a cozinha,
levar as crianças pra escola
e fazer supermercado
(se quiser vir junto, obrigado,
mas nem pense em levar as sacolas).
Pra pregar botão, trocar pneu,
pagar conta no banco, varrer a calçada,
saiba a quem recorrer: eu.
Posso até lavar sua roupa,
passar as peças mais delicadas.
E pras horas em que isso não baste,
deixo ao seu serviço e vontade
meu pau de dez polegadas.

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TEIMOSIA (Flá Perez)

Fico,
para vencer de vez
o eterno duelo
entre a minha mão
e o pelo
que te protege o peito.

- quem sabe um dia
eu entro
pra triturar
sem pena
seu coração
de gelo -

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SOB OS PASSOS DOS DIAS (Marco Aqueiva)

Aos tropeções

três dentes
perdem-se do endereço dos lábios
do calo da língua
na hora calo-
rosa

três dentes
com excesso de nitidez
postos ao anonimato

desempregados
do riso cheio
das mãos boca familiar

da ação reflexa

devolvidos
antes da carne e ossos
ao novo endereço

longe do sorriso
fácil correndo
sob o bigode

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SUÍTE 21 (Jorge Mendes)

enquanto o tempo passa
você fica fazendo bolinhas de fumaça.
flutuando dentro de seu arco-íris frio.
imaginando sonhos indolores, vôos panorâmicos.
imaginando que pode dominar o mundo.
enquanto o tempo passa
há um desastre aéreo na ponta dos dedos
e você gruda o rosto no vidro da janela
e observa o sol ao longo da avenida:
há perfumes pálidos, som de frituras,
vários tipos de morte e os pássaros que atravessam a manhã
são de puro concreto armado
não há crianças, gatos, música aérea
para esse domingo fechado.
só esse sol parado
enquanto o tempo passa.

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TRIBUTO. (Dudu Oliveira)

Dedico este poema a quem é morto
Cuja carcaça perde-se insepulta
Na podridão dos vermes que resulta
A condição que todos somos postos.

Neste canto composto em versos tortos,
Banido da esperança sem ter luta,
Gravando esta verdade à força bruta
Despojos esquecidos dos opostos.

Vagando pela fábula mundana
Não vivem, mas também não estão mortos;
O limbo sorve a culpa sobre humana.

O penhor deste mal tem seus impostos
Oferta preciosa e leviana:
Um punhado de pérolas aos porcos!

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VERDUGO. (Dudu Oliveira)

A pele do covarde veste farda
Monta guarda na sombra do protesto
Cujo gesto corrompe manifesto
Fere presto, tortura, mas não tarda

Quando o peito sem fé desabotoa
Não se doa num culto falso e torto
Quer conforto por cada homem morto,
Noutro aborto que a luta vã perdoa.

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A VIRGEM DE MINHA RUA (Bento Calaça)

Branca como as nuvens
do deserto
a nada se assemelha
no universo

a musa de minha rua
da mais linda carne vermelha
nas noites de esconder lua

fechada como uma pedra
sangra pela vez primeira
agora pronta para o cio

o bicho homem há de comê-la