P:P-P

Palavra-Porrada é um ezine mensal com textos que só têm uma coisa
em comum: teor zero de açúcar.

Os textos-porradas não têm que ser agressivos. Não têm que ser
violentos. Não têm que ser grosseiros (aqui tem até poema de amor,
mas sem rima de "coração" com "paixão").

A participação é livre e recebemos material até o último domingo
do mês anterior a cada edição. As instruções para envio estão na
guia "Dê Porrada!". Claro que não dá pra publicar tudo o que
chega. Mas a gente lê tudo o que recebe e escolhe cerca de 30
de cada vez.


Este XIV Round traz André de Castro, Benê Dito Deíta, Betty Vidigal, Carlos Eduardo Ferreira de Oliveira, Cesar Veneziani, Dani.'. Maiolo, Diogo Mizael, Dom Ramon, Flá Perez, Giovani Iemini, Isadora Krieger, Izacyl Guimarães Ferreira, Jorge Mendes, José Antonio Cavalcanti, Jurema Aprile, Leo Lobos, Ricardo Ruiz, Romério Rômulo Valadares, Solange Mazzeto e Vlado Lima, além dos responsáveis pela bagunça, Lúcia Gönczy e Allan Vidigal.


Fomos assunto do programa Prosa & Verso da Radio Senado. Dá pra
baixar aqui.

10 de fev de 2011

P:P-P, XI Round

CENSURA (Cesar Veneziani)
Clico, não abre!
Tento, não posso:
Site censurado,
Negado o acesso...
E a pobre hipocrisia
Vence prosa e poesia!

Falar de sexo ou palavrão
Em arte é ofensivo?
Argumento sem nexo...
Todo discurso político
É de baixo calão,
E a justiça,
Cega da convivência sifilítica
Com as prostitutas do poder,
Faz questão de foder,
Pra manter aparências
Num moralismo manco e arcaico,
O artista que reproduz
O podre pus que vê!

Caçar site de arte
É artimanha do incompetente
Que, este sim indecente,
Numa boa,
Finge mais que Pessoa...


A DANÇA DAS NOVE (Rafael Nolli)
Compreenderia se me dissessem que por ti
homens e mulheres secaram seus American Express:
que os sentimentais se internaram no Prozac,
mergulharam na cachaça
e acabaram por se identificar
com os personagens das músicas bregas,
com os suicidas frustrados
e os figurões às portas da falência.

Aceitaria como verídico se me contassem que por ti
jovens se masturbaram no banheiro do colégio,
esquecidos do medo das mãos ficarem cabeludas,
das espinhas abundarem,
do pau entortar noventa graus.

Eu creria se me dissessem que outros,
os de alma mística
(na veia correndo alguma coisa andina, ou céltica),
foram desesperados aos lupanares,
recorreram à nave central das igrejas
e terminaram encontrando um resquício de ti
na fumaça da maconha, nas mesas de oija,
nos terreiros de candomblé.

Eu relevaria se afirmassem que Balzac & Nabukov
foram visionários que a profetizaram:
que há algo seu, talvez os olhos,
talvez a alma, na arte de Botticelli;
que poetas menores a vislumbraram,
mas incapazes de compreendê-la
terminaram escrevendo
SONETOS BUCÓLICOS À VIRGEM.

Acataria de bom grado se narrassem em poesia
a saga de homens lacerados
que por ti recorreram ao Merthiolate, à Aspirina,
e sem esperança se entregaram aos divãs,
à loucura mansa dos que cochicham com as sombras,
ou se desnudam na rua.

Jamais duvidaria se me contassem
que uns fizeram de seu nome um mantra,
outros um hino e os exaltados um caminho.
Não duvidaria nunca!

Ó musa, como eu não te amo!


EFÊMERO (Flá Perez)
O sexo
sabendo a orvalho
em florada de murta,

quando ele se abre pra mim,
eu caio de boca,

porque a vida
é curta..


ENXAQUECA (Allan Vidigal)
No escuro do quarto,
depois da partida,
tardia e bem-vinda,
do demônio incandescente
que me rasga ao meio a mente,
me oculto e resguardo.
Na casa vazia,
as cortinas me defendem
do sol que queima as retinas.
A bile agre-amarga:
legado da overdose de aspirina,
desse sacramento químico
- exorcismo, salvação -
em que busco alento, alívio,
em vão.


O ESCAFANDRO E A BORBOLETA (Rosa Cardoso)
era bem tarde quando bateu na escotilha
o mar era profundo e vasto

eu vestia meu traje e fugia
hermeticamente refugiado
nas lembranças suaves

pessoas, sentimentos, coisas, olhares
distantes e extintos
perdido nesse mar

meus olhos de escafandrista vagueiam
enquanto as asas dela se debatem
trazendo sopros avaros

desejo de tornar a ver ou possuir
o passado que não volta

borboleteava na janela
hermética
mas não existe mais


EURÍDICE (Ateu poeta)
Tudo é tão abstrato quanto virtual
Quando sairá no extrato o teatro da desfragmentação racional do silício?
Viver é mesmo um risco, uma louca aventura do ocaso que gera casos ao acaso
Caso seja um descomunal caso do desatino, uma vez que destino não existe também a perfeição não há; o que não impede o impávido de buscar numa luta torturante com a ilusão
E na desilusão o que fará o coração do cavaleiro errante?
Tão incerto quanto o deserto de Dante em sua longa jornada ao encontro da antiga amada, atendendo ao místico chamado
Cruzada do passado que não convenceria Kant
Qual sabiá que não cante diante da aurora em aquarela por não ser o mesmo de antes, também o poeta esquece a canção perante a poética apostasia
Talvez faleça qual borboleta em chama de falsa estrela-guia
Valerá a pena jogar todas as fichas no ideal mais raro?
E se a aposta custar caro, que fará o perdedor?
A porta se abrirá ao Sigurd salvador ou se fechará em mero sonho?
Por que a flecha com esmero não feriu outro Homero, Orfeu, ou Platão?
Desferiu com tanta precisão o alvo preciso?
Qual a maior prisão, utopia ou solidão?
- Em meu peito arde uma alegria triste, profana, por que acha que se engana o desejo a si mesmo
Entre a ânsia do beijo, angústia geográfica e o medo de ser um erro os pensamentos vão embora
A falsa paz de outrora já quebrou o elo
Consigo mesmo travando um duelo entre razão e instinto talvez o gladiador seja extinto pela própria nostalgia
Não importa se é noite ou dia, ou se o presidente morreu
- Neste instante morro eu, o poeta encantado pela inatingível donzela que tingiu imagem tão bela na imaginação do ser mais desatento
Mas, será que ela existiu?


FÁBULA SEGUNDA (Rafael Nolli)
Todas as estatísticas sorriem para mim:
sou um entre as migalhas moídas pelo trânsito.

Meu nome corre entre os que matam
por gosto ou dinheiro -
capa de jornal sensacionalista, de ontem,
me explica como serei vítima de latrocínio.

Um merda sorri no algodão ariano de minha t-shirt,
e é vermelho o papel em que escrevo,
vermelhos os livros de história,
menstruados na estante.

Falo de amor contigo
em meu celular movido a lithium:
você me conta que nosso filho irá se chamar Citotec.

Somos felizes para sempre.


HARDY HAR HAR ABAIXO DE ZERO (Vlado Lima)
xxxxxxsó sol na cidade, no Pari no Peri no Morumbi
xxxxxxxsol no Capão no Taboão
xxxxxxxsol no Morro do Querosene
xxxxxxxsol na Praça do Pôr do Sol
xxxxxxxxxxxxxna Ladeira da Memória
xxxxxxxxxxxxxna Estrada das Lágrimas
xxxxxxxxxxxxxna M'Boi Mirim
xxxxxxxxxxxxxnaquele
xxxxxxxxxxxxxdia
xxxxxxxxxxxxxo
xxxxxxxxxxxxxsol
xxxxxxxxxxxxxar-
xxxxxxxxxxxxxdia
xxxxxxxxxxxxxe acho que
xxxxxxxxxxxxx
xxxxxxxxxxxxxchovia
xxxxxxxxxxxxxem mim

INAPTIDÃO (Isadora Krieger)
eu queria escrever um poema
que te atingisse como espada a face
e fizesse dela pedacinhos imutáveis
eu queria te ver com a bunda de fora
catando agachado teus destroços
no chão com a certeza que é em vão

eu queria escrever um poema
que te arrancasse a máscara da indiferença
tão habilmente dissimulada de argúcia
e no bueiro mais próximo teu invólucro
se debatendo sem volta no espanto próprio

eu queria escrever um poema
que te perfurasse os olhos
os fizesse sangrar e não apenas chorar
a lágrima logo esquece o motivo de ser
o sangue mesmo depois de ressequido
impregna no cerne incontroláveis vestígios

eu queria escrever um poema
que te borrasse a boca de palhaço
torta de tantos circunlóquios
que te fizesse uivar como bicho selvagem
esquecido das convenções e dos protocolos
no estado fundamental da vida primitiva
as serpentes malditas e precisas
que aqui infelizmente são fantasiadas
de bonequinhas inofensivas

eu queria escrever um poema
que te arrebentasse as narinas
cheias das plásticas tão bem executadas
que te poupam de cheirar o escabroso do mundo
que te emprestam a ilusão de não fazeres parte dele
mas não adianta se encharcar de perfume caro
a tua tumba pode até ser de mármore
entretanto há sempre a mesma decomposição
na carne de primeira ou não

eu queria escrever um poema
que te entortasse sem retorno o crânio
que te expulsasse deste lugarzinho cômodo
e confortável que ao longo dos anos
construíste com tamanho apreço
mero terror encoberto de amor satisfatório
porque permanecer apenas um instante só
é se deparar indubitavelmente
com o privativo manicômio,
e daí?

há mais alma no inferno de dante
do que na terra lacrada dos ditos "artistas"
especialistas em rimbaud monet e truffaut
mas ignorantes quando se trata da cigana maltrapilha
eu prefiro sem dúvida um Demônio genuíno
à um Deus limitado exigindo diploma embaixo do braço
eu desejo ansiosamente o teatro mágico
entrada só para loucos para raros
mas as minhas palavras só vão até um pedaço
e tem prazo curtíssimo de validade.


INCÊNDIO NOS BARRACÕES (CARNAVAL DE CINZAS) (Igor Buys)
Carnaval este ano adentrou
mais cedo, e fez seu enredo.

O fogo ruflou tambor,
vergou vergalhão e cuíca,
pintou um samba sinistro
em que se moviam
a águia termonuclear
e seu cogumelo tóxico,
os carros incendiados,
poças de enchente e plástico,
pierrôs em derretimento.


MANUAL DO AMOR À CARIOCA (Igor Buys)
Quando se encontra uma deusa
É de mister amá-la.
Por uns dois dias
Esteja inteiramente apaixonado,
Que isso convém à poesia,
E a poesia é amiga do amor,
Mas no terceiro dia,
Ou te casa, ou sê amigo,
Pois que o amor nunca pode ser estorvo
Nem para si, nem para o outro.
E quando amigo, sê escudeiro,
O mais fiel cavalariço:
Para uma deusa, esteja sempre disponível,
Tal como um primo, tal como um pai,
Que toda deusa precisa disto.
Sê cavaleiro de sua angústia,
Do seu momento de solidão
E amansa o potro dos seus temores,
Se ela te der tal privilégio.
Sê cavaleiro dos seus sonhos,
Se numa noite, sem borda ou medida,
Ela quiser comparti-los,
? Eis o teu momento de sorte.
Mas cavalheiro, abdica de sê-lo:
Isto é excesso entre mulher e homem.
Sê espontâneo, segura firme,
Olha nos olhos, rouba seus lábios.
Beija como quem se despede
Ante a viagem que está por vir
E irá durar um oceano, um continente,
Mesmo que ela seja tua vizinha.
Pois, de fato, entre cada momento
Há um mar imenso e seu naufrágio.
Amar demanda filosofia.
Amar demanda religião
Mas o único deus é o coração
E o corpo nu, seu sacramento.
Toma os seus seios como quem faz
A santa ceia: come-a, amigo, não te deites,
Que deitar é pra dormir, comer
É para a vida!
Diz a palavra de fogo, a palavra
De rua: pede o de que precisas,
Pois de outro modo, irás morrer.
Nada prometas, nada perguntes.
Ouve-a como se ouve a Vivaldi.
Nota o seu menor desejo.
E depois de tudo,
Sê como irmão: sangue do sangue,
Cúmplice de um crime perfeito.
Nada cobres: nada dispenses.


DA METAPOESIA DOS FRACOS (Igor Buys)
note que alguma poesia contemporânea
quebra linhas formais em demasia,
mas nenhuma linha conceitual é fendida:
e giram-se, ainda, as manivelas mesmas
dos calhambeques dos anos vint'áureos.

centáureos, dinossáureos modernismos
ainda contestam os parnaseabundismos.

sejamos não-acadêmicos, usemos pa-
lavras simples, versos pequenos, vidas
minúsculas: quem tem gênio é técnico,
quem tem cultura, é um esnobe, elitista.
poesia agora se aprende, e se aprende
em clubes de chá para aposentado(a)s.

Ora, direi-te aqui algumas verdades, ainda que te doas!
Quem pregará que a verdadeira beleza é interior, senão o feio?...
Quem ensinará que o espadachim é cruel, senão o derrotado, o fraco?...

Irmão: previne-te contra a gramática dos ressentidos; cuidado com a estética
[estratégica dos medíocres, dos ignóbeis!

Sejamos leões, sejamos feras soltas na linguagem! Vamos entabular o discurso
[fúlgido das coisas, deixar de lado o translúcido, o culpado, o espírito!

Haja uma alma cárnea na voz e nas bandeiras! Um coração de fogo e martelo na
[pulsação dos ritmos; viva o dizer físico, tangível, a concretude da imagem!

Quero a poesia de beijar as bocas, de abraçar os amigos; de espancar os canalhas,
[de vencer as guerras, desnudando a moral, as mentiras; clamando, berrando,
[arrancando do útero de um tempo intumescido em suores e ânsias convulsas,
[ensangüentada e viva de prantos,

- a Pós-modernidade!


MEZINHEIRA (Flá Perez)
Nada melhor nessa vida
pra acabar com a insônia
e a briga,

do que uma noite
bem dormida comida.


MEZINHEIRA II (Flá Perez)
O príncipe encantado
quase me matou de tédio:

beijar sapos
foi um santo remédio.


NEM A NEM B NEM NADA (Cris Linardi)
(ó)lho e o (ô)lho dói; é de mim que falam não não é. corro e continuo ouvindo suas vozes toscas - grito, fixo, estaco. bebe um pouco mais, goza um pouco mais. Ri-se toda, foge. Fujo eu. Cá estou no centro do peito e um acorde baixo desce melancólico pela garganta seca.
escarro, normal, no meio da festa. essas mulheres estão gozando com minha cara. eu pego a bandeja de copos e cuspo em cada um deles. Elas pintam suas bocas grossas e exibem suas línguas sujas. eu corro, corro mais, elas me perseguem.
talvez você não saiba do que estou falando mas é disso mesmo, um nada, um tapa na minha cara de tanta verdade misturada. odeio esse dia, quero ir, e quanto mais eu grito, mais quieta fico e essas pessoas estão rindo como se o mundo realmente não fosse acabar amanhã.
tem um tambor ecoando na minha cabeça e o som da guitarra se torna mais forte, doloroso, tem sinos nos meus tímpanos. eu quero pular, mas hoje não posso. eu me infernizo com os fantasmas que insistem em permanecer vivos. Estaco, paro. (ó)lho um (ô)lho morto, ele olha para mim e abre caminho a machadadas em meu corpo. Eu tremo. Vou me abrindo e me dissecando, caio.
Sou eu ou é você? minha essência está escorrendo pelos meus ouvidos e pelo meu sexo latejante eu sofro eu suo eu mijo eu sonho eu vomito. Você continua parado a me olhar. num ímpeto pulo, danço sobre mim mesma e há essa guitarra que me arde em cada toque nas cordas.


OLHAR-ME (Oze)
No arco da Iris
No olho da luz
Um arco-íris
Psicológico
Psicodélico
Psicossomático
Psicotrópico
Psicótico
No id
No ego
No nervo ótico
Um arco-íris
Lógico
Esférico
Somático
Apático
No nervo Ártico
Longe do trópico
Um frio Antártico
Um olho entrópico
Um amor retórico
De pote de ouro
Tesouro utópico
Sarcástico...


OUTRO DIA DE HOJE (Nilson Moreno)
O dia foi-se tarde sem ter sido
notado pra futuros calendários
Um dentre tantos outros, ordinário
na média e sem remédio - já perdido

(é madrugada, amigo, nada nega
não sinta ansiedade nem tristeza)

A noite é mais culpada quando parte
o céu em cinza, anil e cor-de-rosa
A noite é sintonia mais dolosa
plantando seu the end em cada start

(é madrugada e tudo é permitido
mas cada passo é falso e vigiado)

É madrugada, amigo, na bodega
E as cobras que se escondam pelos cantos
Aqui são todos sóbrios, sábios, santos
E não se quebram copos, tratos, regras

(é madrugada e cedo sem apartes
Que o dia já vem vindo renovado)


PARALELO 23 (Ruth Cassab Brolio)
Te encontro
no universo paralelo,
no assombro, no sonho, nos versos.
PARALELO 23 S
Pelo GPS, São Paulo,
Paulicéia desvairada,
Zona Sul, S.O.S.

Te encontro
no parque, sábado passado,
no verso do caderno.
Na viagem ao futuro, pelas frestas todas
do muro-de-ver-lá-fora.
Na próxima estrada, de carro.

Te encontro
Na brancura das nuvens, travesseiro,
passageiro da meia-noite.

Te encontro
a pé pelas calçadas,
no bairro da tua meninice,
em que perdi o humor e o rumo,
topadas que tomei na quina da cama.
E onde passeio os cães ao léu,
(em território de enfrentar gatos,
matar os próprios leões)
no ato de entender da pilha de roupas,
a reles muda do lençol,
trocada no rol da semana.

E enfim, de novo.
Te encontro por mimo, por zelo,
por puro desacato.
Nas voltas do novelo,
como sempre o belo acaso
(dirias, o mundo todo, uma ervilha!).
Na lavanderia, na esquina de casa.


PERDEU (Lúcia Gönczy)
um ano no salão azul
estacionei minha alma
naquele canto de sempre
à espera da contradança;
por onde a porta me abria
entravas e nem te apercebias
- lá eu estava...

entretanto, o tempo mudou-nos de posto:
- já não me posto en-cantos de sapos;

demorastes demasiado, meu rei.
agora és tu quem esperas sentado!


PISO TÁTIL (Ruy Villani)
As vagas e as ventanias reportadas
Em tantos e tantos escritos por aí,
A lua e as estrelas, reformatadas em versos
São maiores do que todas as luzes que já vi.

As raivas e as dores, assim reafirmadas
São todas maiores que os versos mais inferiores
E aqueles que superam Augusto dos Anjos
São nojos menores de pequenos marmanjos.

A dor, a verdadeira, aquela que te toca e se anuncia
É a dor de cada dia, a que é feita da surpresa
A que te faz uma presa, e ignora as defesas já armadas
A dor se faz por partes, em camadas.

Umas são leves, quase sem serem percebidas
Outras, contidas, sem que se preste a atenção
Mas as maiores virão, como vêm as intempéries
As pragas do Egito. Estas chegam em séries.

Depois, viram história.

Há que se reconstruir os berços
Rezar por novos e mais inesperados terços,
Fazer atos de constrição.

E, mais do que isso
É necessário saber do chão onde se pisa
Porque é sempre a sola, por ser tátil, que te avisa
Onde estão os passos, os pés.
A sorte e o revés.


POEMAS DA DOR (Betty Vidigal in "Os Súbitos Cristais" – 1985)
I
Após permitir que as coisas se afastassem,
após a rápida visão do nada,
o que me resta é contemplar com indiferença
a dor que sempre mais é dona do meu corpo
e que progride um pouco mais no seu poema
da destruição de mim

Agora leio nas linhas de minha mão
que era este mesmo o destino previsto
e ser era, afinal, inevitável
e se qualquer que fosse meu início este seria o fim,
por que motivos vivi e lutei
e tracei planos de vida
como todos fazem?

II
Eu e meu desespero,
eu e minha amargura por ter sobrevivido
à possibilidade de morte que cada instante apresenta
- degraus soltos,
explosões acidentais,
freios em más condições,
alimentos deteriorados -
para afinal estar aqui:
imóvel,
guardada nas mãos da dor.

E minha revolta, não conta?
E meu ódio?
E meu amor?
todas as causas que abracei
todos a quem amei alegremente,
despreocupadamente,
minha longínqua idade de criança quieta,
meu coração,
os mendigos que vieram à minha porta,
meu espanto diante do amor,
a alegria pelas flores azuis
o pico de onde olhávamos o campo,
eu loucamente corria,
o canto amigo das fontes,
nesta pedra esqueço o mundo,
visita-se o cemitério nas manhãs de domingo,
a descoberta de Omar Khayyam,
- a vida,
Mas não importa.
Agora tudo é findo.

III
A dor faz parte de mim
e eu lhe pertenço.
De tal forma faz parte de mim
que às vezes posso esquecê-la,
como os outros às vezes se esquecem
de que transportam cílios ou pulmões.
De tal forma lhe pertenço
que nada faço sem seu consentimento
expresso.
A dor me subjuga
e sabe disso.

IV
À superfície da pele
nada se altera.
Meu corpo parece hoje
o mesmo que sempre tive.
Apenas -
eu sei que algo nele vive
e cresce e prolifera

Mas impalpável e invisível.

V
Não quero espelhos!
não gosto de saber a expressão
que tem meu rosto agora.

A última vez que me vi foi como um pesadelo.
O fundo desespero no fundo dos meus olhos.
Os lábios secos entreabertos e a testa franzida.
Mas se alguém vai pentear meus cabelos,
Que o faça com ritmo.
E que não pare até me ver adormecida.


PUNHAL (Celso Mendes)
incisivo e frio
rápido rasga

espanto sem pranto

vermelho

rugido, rangido, pungido
ventrículo vertendo vida

vermelha

arritmia
arreflexia
agonia

nos olhos
a brusca busca do ar

no sopro em que vaza a alma
enfim
a eterna calma


SERÁ UMA TRISTEZA (Flavia Valente)
Será uma tristeza, mas será uma tristeza por cima - como nunca tive antes -
ouvindo Nessum Dorma e tomando Jack Daniels com suco de caju.

Antes burlesca que doente,
Não quererá chorar a toda hora
Falará impropérios, palavrões
Mandará o mundo ir tomar no cu
Mas será glamorosa e soberba

Uma tristeza pintada por Magritte
Surreal e nova
Obviamente fará poesias - como agora
Obviamente fracassará
E como todos os fracassados
Lerá Augusto dos Anjos
E lindamente reconhecerá em seus vermes
Seus bichinhos de estimação

Será a justa tristeza dos artistas que não ganham dinheiro
A tristeza sorridente do palhaço
Não a do garçom mau-humorado
E ela estará cercada pelo luxo abundante
Das riquezas humanas a que somos negados
Todos os dias


SIGO (Charles Miranda)
Sem seu sorriso... sou semi
Sílaba separada, sem sentido.
Sobras de um sonho, sobejo.
Solo sequioso da solidão.
Sombra silente, sem som.
Sugado pelo sumidouro da sádica saudade que sinto.
Sou seu suvenir sem serventia
Sou sede que não sacia
Sistema solar sem sincronia.
Situação sobre-humana, singular sentimento
Sinto-me soçobrar em sofrimento
Sem saco, sem simpatia.
Sisudo, soturno, sorumbático
Servo de seus sortilégios e sevícias
Solilóquio de sandices, sarau sarcástico.
Sou semita, sois suástico
Sem simetria, sem sintonia
Se eu somasse, subtraías.
Socorro... Saqueaste meus sentidos!
Sandeu, sequer soubeste ser sensível.
Sente-se superior sabendo meus segredos?
Sacanagem sua, servir-se de meu sossego.
Sacripanta, sanguessuga, Satanás, serpente
Subestime meu sexo, saboreie salivas suplentes.
Se superestime, sinta-se suficiente
Surpreenda-se ao se saber supérfluo.
Simulei seu sepulcro, saturei subitamente
Sobre sua sórdida soberba salpicarei solvente.
Serei severo, sem sutilezas secarei sua sorte
Sofra, sinta, suplique, suporte.
Sou a sanha no soco que sangra o supercílio
Sem senso, selvagem, símio.
Solto da soga que me sufocava
Sortido de sentimentos e sensações
Semblante sereno de satisfação
Suave, sublime, são.
Sem seu sorriso... sigo.


SOB VIADUTOS E MARQUISES (Fernando Freire)
que caminhos me esperam
sob a pele de teu
olhar cansado agora
que as estrelas rebrilham
a esbanjar vanidade
sobre todo o bem
sobre toda a maldade
e tua mão sussura
que não estou sozinho
enquanto carros passam
e jatos rugem céu
adentro céu afora
sobre os cisnes que cantam
no morrer de cada hora?
que canções beberei
no céu de tua boca
quando o dia minguar
quando a noite for pouca
para tanto desejo
espreitando no asfalto
renascendo no beijo
e a miséria daqueles
que mastigam o pão
da fome sob viadutos
e marquises mostrar
a face deste Deus
que sempre escolhe os reis
e pretere os plebeus?


THE SHOW MUST GO ON (João Melo)
Chuck Berry, o inventor do rock and roll,
espetou um aguilhao de ouro
nos tomates putrefactos do racismo

Chuck Berry, com seu cabelo desfrisado,
seus pulinhos de gato
e seus acordes luminosos,
misturou no mesmo palco
e na mesma febre improvavel
o que nao se devia misturar

Chuck Berry, com seu orgulho negro
sem ressentimento nem arrogancia,
gostava de comer
garotinhas branquinhas
curiosas e safadas

Chuck Berry, por conseguinte,
tinha de ser detido
para nao continuar a espalhar
a loucura que havia inventado

Chuck Berry foi trocado
por um branquinho de patilhas espessas
e uma crista pedante na cabeca
chamado Elvis Presley


SONETO DA DEVASSIDÃO (José Henrique Calazans)
Enquanto a noite vai chegando ao apogeu,
em teus lençóis os meus pudores eu afasto
e sigo em busca do deleite nada casto
que só teu corpo pode dar ao corpo meu.

Na tua cama sou amante, fera, deus!
E penso, enquanto em tua carne faço pasto:
"Nenhum dinheiro, certamente, é melhor gasto
que o empregado nos fingidos gozos teus."

Mas se o tesão ao fim da transa ainda me engana,
chegando mesmo a disfarçar-se de ternura,
prometo, sou capaz até de uma loucura:

antes que tenhas posto a roupa e pego a grana,
eu te direi, com meu orgulho de poeta:
- Fiz um soneto à minha puta predileta!


TEMPORADA DE CAÇA (Vlado Lima)
na mira dos mariachis
entre leros & boleros
como si fuera esta noche la última vez
noite da franga solta
da caça às buças
da alegria anabolizada
de êxtase
catarse
e larica
noite dos palhaços de açúcar derretidos sob o sol dos refletores
das putas
dos viados
das lésbicas pirofágicas
noite da chuva de purpurina ácida
dos clones
dos replicantes
dos abduzidos
noite das bailarinas paraplégicas empaladas no embalo dos bate-estacas
dos punheteiros do Orkut
das zibelinas narcisistas de piercing no clitóris
dos anões de benga farta
e dos cheiradores de cocaína e peido

na mira de Mr. Manero
entre Night Fever e Stayin Alive remix
tô topo do Titanic
sou o rei do mundo
o sultão do swing
o senhor das baladas
tô em ponto de bala
em ponto de bola
na cola dos mano
das mina
o paraíso tem gosto de anfetamina com vodka mexicana
la cucaracha, la cucaracha
ya no puedo caminar...

na mira de Morrissey
a rainha está morta
e ninguém take me out tonight
homem ao mar! (grita um bucaneiro transformista)
o motor do Fiat ronrona uma canção de ninar Húngara
elefantes de polainas tocam tuba na 23 de Maio
tem um ogro no banco de trás
um foragido de Alcatraz
e um vicking vestido num tomara-que-caia rosa-baitola
sou uma vaca de ressaca mascando Lexotan com Dramim
homem ao mar!
os afogados do Krust me acenam
enfim sábado jaz
enfim sábado
FIM

ma mira de Mefistófeles
entre bitucas de cigarro
e restos de pizza do período cretáceo
meu apê, meu doce apê!
Pernalonga na tv: o que que há, velhinho?
penso em cortar meus pulsos com uma faquinha de bolo Pullman
e pular da janela segurando sacolas de supermercado

na mira de Morfeu
entre um sushi de maracujá e um chá de tsé-tsé
4 da madruga e zuzo bem!
vou abrir uma latinha de cerveja
ferver um Miojo
e purgar minha carranca no espelho

(...)

e mais uma vez não comemos ninguém


TEOLOGIA DO DELÍRIO (José Henrique Calazans)
Todos os dias purifico a mim mesmo.
Me livro do que não for intenso,
me livro do que não for perigo
me livro do que não for tesão.
Abro novos horizontes para minhas loucuras
e faço estradas novas com o sangue de meus pés.

Grito aos sábios com seus cantos de aleluia fúnebres
que só alcança a luz verdadeira
quem queimar os altares da própria sanidade.
E que só pode banquetear-se com os deuses
quem se elevar ao inferno mais baixo
e derrotar seu demônio mais fiel.

É preciso fugir do caminho do meio,
Para escapar da mediocridade.

Os pregadores da vida eterna
abominam o que não for moderação.
E eu, que vivo entre excessos,
às vezes acho a vida tão curta,
que chega a ser longa demais.


TERRA INCOGNITA (Allan Vidigal)
Como se fosse eu navegante
do tempo do Descobrimento;
você Porto Seguro e eu caravela;
como se fosse eu entrada, bandeira,
e você Pindorama,
demarco, desbravo.
Você reclama, mas deixa.
Te estudo, te exploro.
Você se revela.
Abro trilhas na floresta,
mapeio a sua costa,
cada palmo do seu território.
Você protesta, mas gosta.

5 comentários:

Lúcia Gönczy disse...

HERMANOS!!!

Essa bagunça está cada vez mais organizada, hein?!
Parabéns a todos porradeiros; excelentes textos. Grata, sem exceção. Porradas que não entraram neste Round XI, estão na fila para o próximo. Isso não quer dizer largue a pena e descanse. NADA de preguiça!!! A partir de hoje estamos esperando seus textos. Participem escrevendo, opinando, divulgando. O P:PP é NOSSO!

beijão

Lúcia Gönczy

Flá Perez (BláBlá) disse...

tá uma beleza!

Larissa Marques disse...

mara!

vlado disse...

Porradaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!

ükma disse...

Oi porradeiros! Nessa edição, ficaram com preguiça de dar porrada? ritmo de férias, né? destaco as minhas prediletas, então:

Censura(Cesar Veneziani); Efêmero(Flá Perez); Fábula Segunda (Rafael Nolli; Inaptidão (Isadora Krieger), Vlado Lima e o poema do Chuck Berry do João Melo.

Beleza?
Fui!
EF